Pugilistas entre as luvas e a marreta

Nílson Garrido se prepara para mais uma grande noite de boxe, na Zona Leste de São Paulo. Depois de promover uma noitada em uma praça, em setembro, o alvo do misto de empresário e treinador agora é uma borracharia. "Quero usar aqueles macacos hidráulicos para os carros ficarem no alto, com faróis acesos para iluminar o ringue", idealiza. "Quero fazer uma coisa diferente, algo que nunca se viu aqui no Brasil. Quero fugir do tradicional feijão-com-arroz."Mas para o sonho de Garrido se concretizar "e a casa não cair", os pugilistas da Academia Nova Corbery - Jack Welson, Genildo Ferreira e Fábio Garrido - estão trabalhando pesado na captação de recursos. Vale tudo na hora de arrumar os cerca de R$ 10 mil para a realização do evento. Ontem, na Vila Matilde, também na Zona Leste da capital, os pugilistas faturaram R$ 2 mil trabalhando como "demolidores": derrubaram duas casas térreas na Rua Valdemar Carlos Pereira (no lugar, será construído um sobrado com loja embaixo).?Na porrada? - Não foram usadas só marretas para colocar as paredes no chão. "Dependendo da parede, e se os tijolos não forem tão grossos, a gente derruba tudo na porrada. Nem precisa enfaixar as mãos para proteger. É uma delícia", conta Nílson Garrido, dando risada da situação. "Derrubamos uma casa brincando. Se começarmos às sete, tudo está no chão até as três da tarde."O serviço fica pronto em dois dias. No primeiro, geralmente os pugilistas derrubam tudo. No segundo, o mais complicado, o pessoal limpa todo o terreno, tirando o entulho com carrinho de mão e enchendo as caçambas que são levadas por caminhões.Dos R$ 2 mil arrecados ontem, pouco menos de R$ 1 mil fica com o treinador. O restante, ele distribui aos atletas para ajudar no sustento das famílias. A situação seria mais cômoda se as empresas destinassem alguma verba para ajudar no projeto do treinador de boxe. "As grandes geralmente ajudam, mas acho que está sendo difícil por ser fim de ano", lamenta.Apesar da estimativa de R$ 10 mil, Garrido tenta se virar com o que tem para reduzir o custo do evento para R$ 4 mil. "O mais caro é a taxa cobrada pela Federação: de R$ 1.500 a R$ 2.800, incluindo ringue, mesa de som, juiz e cinturão." O treinador já construiu um ringue e se prepara para vender espaços publicitários para ter uma fonte de renda mensal. O próximo passo é arrumar mesa de som. "Quero montar o evento para a disputa do cinturão brasileiro, da Confederação Brasileira de Boxe, até o dia 25. Em dezembro, quero ver se o Fábio (seu filho) já luta pelo título ibero-americano, que é de um colombiano."Além de promover o boxe profissional e revelar pugilistas, o empresário-treinador quer fazer o esporte crescer. Morador da Vila Ré, tem o incentivo de amigos e comerciantes locais. "Quero descobrir talentos. A Zona Leste tem um grande potencial, diversas academias, mas muita gente desconhecida."Além de casas, o grupo também é especialista em derrubar árvores e "cortar barrancos". "Aceitamos fazer qualquer coisa. É só falar o que tem para fazer que levamos machado, picareta, marreta... Na semana que vem vou atrás de uns eucaliptos para podar aqui perto. Uns troncos grandes. Não pense que será moleza...", brinca.

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