Qual é, Mano?

Pouco antes da Copa de 2006, retornando de um evento no Guarujá, eu dei carona para o técnico Carlos Alberto Parreira até São Paulo. Ao longo do caminho, o assunto inevitável foi a seleção brasileira. Não conversamos apenas sobre aquele time de 2006, que talvez tenha sido o de maior talento individual desde a inesquecível seleção de 1982, com craques como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Robinho e Adriano brilhando como astros dos campeonatos europeus. A conversa foi mais ampla, sobre o significado da seleção e a responsabilidade de dirigi-la - muito mais do que a preocupação, manifestada pelo treinador, com a dificuldade de controlar um grupo de craques no ápice do deslumbramento e mais preocupados com suas vidas de celebridade do que com treinamentos táticos e físicos. Naquela curta viagem eu pude comprovar, mais uma vez, a grande figura humana e o grande conhecedor de futebol que é Parreira.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

Não é Parreira, no entanto, o assunto de hoje - ainda que aquela conversa na subida da serra venha bem a calhar quando me atrevo a analisar o trabalho do verdadeiro personagem da coluna: Mano Menezes.

Uma das coisas que o técnico tetracampeão do mundo ressaltou naquela oportunidade foi a enorme diferença que existe entre treinar um clube e a seleção brasileira. Num clube, explicou Parreira, o treinador precisa definir o estilo de jogo do time de acordo com as peças que possui. O orçamento das agremiações é limitado e não é possível ter o jogador ideal para cada posição. Se no elenco você conta, por exemplo, com dois atacantes que não sabem fazer a função de homem área, o jeito é jogar pelos flancos. Se seus laterais são fracos no apoio, os volantes devem subir um pouco mais. Se, ao contrário, os laterais não sabem defender, talvez o jeito seja atuar com três zagueiros, transformando os laterais em alas. E assim por diante. Entretanto, observou o mestre, na seleção a história é outra.

Segundo Parreira, num país rico futebolisticamente quanto o Brasil, é inadmissível um técnico se apresentar para treinar a seleção sem ter uma concepção de jogo. Se ele gosta do esquema de três zagueiros, como Felipão, terá à disposição três ótimos defensores para montar o time do jeitinho que gosta. Se a preferência é por valorizar a posse de bola, num um tradicional 4-4-2, como Parreira adorava, certamente haverá bons talentos para ocupar as posições. Podemos falar à vontade de Dunga, mas o seu time tinha uma proposta tática. Fora de casa ou diante de adversários mais fortes, recuávamos e partíamos em contra-ataques velozes e mortais. Foi assim que batemos a Argentina algumas vezes, ganhamos a Copa América, as Eliminatórias e a Copa das Confederações.

Caímos na Copa do Mundo por conta do verdadeiro erro de Dunga, que não foi tático. A insistência do técnico em manter seu grupo fechado de atletas fez com que ele deixasse no Brasil o já endiabrado Neymar e o grande articulador de jogadas Ganso, naquela oportunidade jogando muito mais do que está jogando agora. Em troca levou Kléberson, hoje reserva do Atlético Paranaense, e o descontrolado Felipe Melo. Deu no que deu.

O que falta a Mano é justamente nos dizer qual é a sua proposta tática. Já vi o Brasil muito ofensivo, excessivamente recuado (como na última quarta, diante da Alemanha), no 4-4-2, no 4-3-3, no 4-3-1-2, no 4-3-2-1... O fato é que, se o técnico não definir como o time pretende atuar, os jogadores jamais se adaptarão aos papéis esperados. Ganso pode jogar mais adiantado ou mais recuado, Neymar pode jogar mais solto ou cumprindo alguma função tática, os laterais podem avançar mais ou menos. O que não podemos é esperar que os jogadores atuem cada hora de um jeito e, ainda assim, desenvolvam um padrão de jogo. Não defendo a saída de Mano Menezes, mas entendo que o seu prazo para definir como quer ver a sua seleção jogando está se esgotando. Sem estabelecer se vamos tocar mambo, maxixe ou samba, é difícil esperar que a orquestra se entrose, por mais recheada de talentos que ela seja.

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