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Qual é o seu time?

O começo é sempre como torcedor. Por algumas razões, às vezes óbvias, outras obscuras, começa-se a torcer para um time. E essas ligações, como de resto todas as experiencias de infância, ficam para a vida inteira. Ficam mesmo? Há uma categoria de torcedores cuja paixão infantil é frequentemente desviada e torcida. Falo dos torcedores que ao crescerem se tornam jogadores de futebol. Muitas vezes grandes craques. E não são poucas as vezes em que se estabelece o conflito entre o profissional e a antiga criança.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h06

Muitos jogadores ocultam cuidadosamente suas preferências de infância, quando eram apenas torcedores. Felizmente isso vai ficando cada vez menos frequente e tende a se extinguir. Os jogadores ficarão em breve inteiramente livres para confessar suas paixões infantis.

Quando isso acontece, ficamos sabendo de coisas curiosas. Poucos dias atrás, no programa Bola da Vez, da ESPN, com Roberto Rivellino, lhe foi perguntado quem eram os jogadores que mais admirava quando garoto. Declarou que eram Didi e Chinesinho. Alguém perguntou por que Chinesinho. E Rivellino respondeu que, em primeiro lugar, por ser torcedor do Palmeiras. Além do grande talento que todos reconheciam no Chinês. Assistia a jogos e treinos do Verdão e de quebra via seu ídolo.

Não é uma história exatamente nova. Sabe-se das origens de Rivellino e sabe-se também, ou se apregoa, que não foi aproveitado no Palmeiras quando lá tentou a sorte. Faz parte das tradições do clube certa reserva quanto a dar oportunidade para gente da casa. Rivellino não foi exceção. Ele seguiu seu caminho e não é preciso dizer mais nada.

Dias depois dessa entrevista estive com Dino Sani, o grande craque de São Paulo, Boca, Milan e Corinthians, campeão mundial com a seleção de 1958, a primeira a conquistar esse título. Dino me contou quase a mesma história. Nasceu na rua Diana, a 50 metros do velho Parque Antártica. Até por causa da proximidade, talvez, o garoto Dino era torcedor do Palmeiras e para lá se encaminhou quando começou a jogar. Foi subindo de categoria desde os infantis até que, ao atingir a condição de profissional, percebeu que não seria aproveitado. Foi para o Comercial, antigo clube da capital, e dali para a fama e para a glória. Mas não no Palmeiras.

Esses dois grandes jogadores tiveram de algum modo sua paixão de garotos truncada pela vida profissional e depois esquecida com o passar dos anos. O profissional aniquila com o torcedor antigo, enterra bem fundo o torcedor que levava dentro até que, por fim, talvez se esqueça completamente do que se chama, sem muita originalidade, "o time do coração". O time do coração passa ser o que o acolhe, paga e respeita. O que permite que leve uma vida digna e satisfatória, o que lhe dá fama e recompensa.

Resta saber quanto do garoto está realmente sufocado no adulto. Quis perguntar ao Dino, hoje apenas um senhor que vê jogos pela televisão, qual é seu time preferido. Optei por não perguntar. Certas perguntas não se fazem. Isso quanto ao lado interno, quanto ao que se passa na alma. No lado exterior, objetivo, fica uma questão talvez divertida. Dino Sani e Roberto Rivellino, dois garotos palmeirenses, compuseram em 1965, ou por aí, o meio de campo do Corinthians. Um dos grandes meios de campo do Corinthians. Eram almas desgarradas.

Não é privilégio do Palmeiras certas mancadas quando se trata de reconhecer craques que surgem. Muitos clubes cometeram o mesmo erro. Reconhecer valor num garoto é tarefa complicada, que requer visão, talento, e muitas vezes, sorte. Mais do que tudo, sorte.

Falei do Palmeiras apenas pela coincidência e também porque, vamos e venhamos, o clube não se destaca por valorizar a base. O fato é que passou por lá, sem que ninguém notasse, um futuro lendário meio de campo do Corinthians formado por dois torcedores palmeirenses.

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