Quando o protesto organizado é válido

Não sou admirador das torcidas organizadas. Para dizer a verdade, não sou admirador de nada organizado demais. Tenho uma certa aversão por facções, por redutos exclusivos e associações fechadas. As torcidas organizadas parecem querer demonstrar a todo momento que há torcedores que se diferenciam dos outros, são especiais, estão numa classe privilegiada de amor ao clube. Não gosto dos estandartes, das bandeiras e nem das camisas dessas torcidas. Isso sem falar na violência, que é um assunto de domínio público no futebol.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Entretanto, às vezes sou obrigado a admitir que as organizadas tomam atitudes que, apesar de sempre cercadas por alguma truculência, são compreensíveis e, mais do que compreensíveis, são corretas. Esse negócio de interpelar treinadores e dirigentes quando o time não vai bem pode irritar alguns, mas é plenamente justificável. Nesse momento, sim, as organizadas estão falando por todos os torcedores, representando o desejo da maioria e reivindicando coisas que a maioria aprova.

Aconteceu recentemente no Corinthians. Os Gaviões pressionaram, provavelmente com a delicadeza habitual, e no fim das contas caiu o treinador. É justo? Talvez não. Mas, por outro lado, não é compreensível, e até mesmo necessário, que alguém faça alguma coisa, tome uma medida qualquer, quando a situação fica cada vez mais complicada? É claro que há conchavos entre organizadas e alguns dirigentes. É claro que há favoritismo, jogadas subterrâneas e cumplicidade mal explicada entre dirigentes e organizadas.

Mas, quando a coisa aperta, é a organizada que vai pressionar e exigir providências. Frequentemente são atacadas por isso. Acho que há todos os motivos para criticar as torcidas organizadas, menos esse. Talvez seja o temor das organizadas que fazem certos dirigentes se mexerem e procurar dar uma jeito na equipe.

Essas mudanças de treinadores que todos criticam não são inteiramente injustificáveis. Não há treinador que tenha caído com as coisas andando bem. É certo que o treinador muitas vezes tem pouco a ver com o fracasso, mas é a parte mais fraca e os dirigentes, num primeiro momento, se valem da sua demissão para escaparem, eles também, das críticas e das ameaças. Mas frequentemente chega também o dia deles, dirigentes.

O que é mas importante, enfim, não é o resultado, mas o gesto. O gesto de se insurgir contra alguma coisa que não está funcionando. Os dirigentes desta nação, as autoridades em geral, não estão acostumadas a esse tipo de coisa. Ninguém protesta com veemência, ninguém sai às ruas para se opor a medidas descabidas ou à falta delas. Não há partidos políticos que se ponham à frente dessas manifestações, à maneira das torcidas organizadas. No entanto o protesto é da democracia, faz parte dela, é até essencial a ela. Nesse momento, por exemplo, estão ocorrendo manifestações por toda a França, pacíficas, mas eloquentes, no seu protesto contra ações do governo que parte da população acha prejudicial.

É nesse sentido que o futebol, através dos protestos constantes das torcidas organizadas oferece um exemplo do que poderia ser a atitude de toda a sociedade. Sim, apesar de tudo, há algo que podemos aprender com os Gaviões, a Mancha, a Independente, etc. Quando as coisas não funcionam, alguém tem que tomar uma atitude. Só não se justificam violência e coerção. O protesto, sim.

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