Quando o simples é sofisticado

Foram tempos duros para o futebol espanhol. Por mais de meio século, o país teve clubes poderosos e temidos, mas sua seleção nacional era desprezada pela vizinhança europeia, marcada pelos fracassos e pelo indisfarçável complexo de ver países como Itália, Alemanha e Inglaterra dominando a cena internacional. Sem contar os coirmãos do outro lado do Atlântico. O futebol refletia muito da posição isolacionista da nação sob o autoritarismo militar de Francisco Franco, desde os anos sangrentos da Guerra Civil na segunda metade da década de 1930 até meados dos anos 70. E o país ainda sofria com o aprofundamento de suas divisões políticas internas, regionalistas, em certos momentos fratricidas.

JOSÉ EDUARDO DE CARVALHO,

30 de junho de 2013 | 02h09

Os espanhóis eram reconhecidos por uma forma de jogar um tanto elementar, pouco criativa, marcada muito mais pela dedicação física do que por atributos técnicos. Não à toa era chamada de "Fúria". Sustentava seu prestígio graças às campanhas de Real Madrid e Barcelona, potências no universo clubístico, importadores contumazes de inúmeros jogadores que marcaram época, desde Puskas e Di Stefano até Maradona e Cruyff. Só com o fim da era franquista teve início um processo coletivo de revitalização dos valores morais e regionais em todos os aspectos, abrindo espaço para que manifestações culturais como o esporte, tendo o futebol como carro-chefe, fossem potencializadas junto com as inevitáveis transformações sociais. Os projetos esportivos ganharam ainda mais fôlego com a realização da Olimpíada de Barcelona, em 1992, e o esporte espanhol nunca mais desceu do pódio.

O catalão Xavi Hernández nasceu cinco anos após a morte do ditador, um ano antes do madrilenho Iker Casillas. Pouco depois vieram ao mundo o manchego Andrés Iniesta e o andaluz Sérgio Ramos. Todos são filhos da transição, cresceram no período em que o país se abria para o mundo, assentado sobre sua estimulante diversidade cultural e seu riquíssimo patrimônio histórico, agora impulsionado por ventos democráticos.

Na Espanha do novo século, foram eles - representantes de distintas regiões - os responsáveis por unir o país pelo esporte, com um estilo de jogo forjado no Barcelona, estabelecido no fundamento mais eficiente do futebol, o passe. Estava sepultada a "Fúria".

Não há na história contemporânea da Espanha notícia de um momento nacional de confraternização semelhante ao dos dias que se seguiram à conquista da Copa da África do Sul: multidões pelas ruas de todo o país, bandeiras bascas e catalãs convivendo alegremente com os festejos patrocinados pelo poder central nas ruas de Madri. Unidade semelhante só se viu vários meses depois, nos protestos dos "Indignados" em torno da crise financeira.

A conquista da Copa na África representou, antes de tudo, a sedimentação de um modelo de jogo, a graduação de um estilo. Ajustados em pequenos triângulos e quadriláteros movendo-se continuamente pelo campo, os espanhóis trituram adversários, tratam com intimidade o jogo de toque, fazem da bola sua propriedade. Raramente perdem o controle e não abrem mão da iniciativa. Tem sido assim nos últimos cinco anos de vitórias em série.

O Brasil teve muito a ver com esse panorama, graças a seu estilo clássico, musical e de estética privilegiada, tipo exportação. A identificação cultural entre os latinos, os laços históricos com a Península Ibérica e o currículo multipremiado levaram o padrão brasileiro de jogo a seduzir clubes e torcidas daquele pedaço de mundo. Ainda hoje, uma geração de espanhóis tem fundas lembranças do time que esteve na Copa do Mundo de 1982, conduzido por Telê Santana, Sócrates, Zico e Falcão. Um time que não ganhou, mas manteve vivas as esperanças de que o futebol vale a pena. Pela Espanha, pouco depois disso, passaram alguns dos maiores craques que deixaram o Brasil nas últimas décadas, primeiro Romário e Bebeto, depois Rivaldo, Roberto Carlos, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, dentre tantos outros. E agora Neymar.

Por alguma razão, porém, o Brasil de ontem, temido e invejado, deixou alguns valores próprios pelo caminho e entregou seu posto de honra para a Espanha de hoje. Abandonou em parte o precioso toque de bola em busca de formas mais pragmáticas de jogo, que contrariam seu portfólio de vencedor e o fascínio que exerceu por tanto tempo em tantas paisagens.

O resultado é que duas realidades desfilarão hoje pelo repaginado Maracanã. Esse Brasil divorciado de suas reais vocações, que, ao trocar a diversão pelo ofício, anda à procura de seu lugar na nova ordem do futebol. E essa Espanha - La Roja - com aura de imbatível, que, em sua busca pela essência do bom jogo, consegue transformar simplicidade em sofisticação.

JOSÉ EDUARDO DE CARVALHO,  JORNALISTA,  AUTOR DA TRILOGIA "FUTEBOL,  O JOGO,  DINHEIRO, GEOPOLÍTICA", DO BLOG "500ac" NO ESTADAO.COM.BR

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