Quando o título é inquestionável

Amigos, Tite declarou que o título do Corinthians era inquestionável. Verdade pura. No sistema em que o Campeonato Brasileiro é disputado desde 2003, os títulos são sempre inquestionáveis, a não ser que haja a interferência de um fator externo, como já aconteceu. Comportando-se a arbitragem de maneira normal - isto é, sendo incompetente de maneira equitativa - quem somar mais pontos na última rodada é mesmo o legítimo campeão.

LUIZ ZANIN, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2011 | 03h03

Essa é a maior virtude do sistema. Uma vez definido, ele é justo e sem margem para contestações. Também é um tanto abstrato - no bom sentido do termo. Ficamos procurando instantes marcantes e, de fato, encontramos às vezes esse ou aquele momento em que o título foi definido. Eu mesmo escrevi aqui sobre um desses momentos, quando Adriano marcou aquele gol contra o Atlético Mineiro. Mas, a bem da verdade, se o gol do Imperador foi decisivo, mais ainda o foram os de Liedson, diluídos ao longo de toda a competição.

Também me parece o grande acerto do ano a manutenção do técnico Tite nas horas difíceis, como a derrota para o Tolima na pré-Libertadores. Naquele momento pensei que o treinador não fosse sobreviver. Não estava errado. Baseava-me na tradição brasileira de sempre encontrar um bode expiatório para as derrotas. Mas Andrés me desmentiu e essa manutenção, contra toda a expectativa, revelou-se decisiva. Se o Corinthians tivesse mudado de técnico, ainda assim seria campeão? Não sabemos. Jamais saberemos, porque a pergunta é absurda, pura especulação. O que sabemos, sim, é que Tite ficou, montou um time nada brilhante, porém estável e conduziu-o ao título.

De certo modo, o time é o retrato perfeito do Campeonato Brasileiro de 2011. Ganhou na constância, na raça e no sufoco, como é da natureza do clube. Teve um oponente de valor, o Vasco, que trabalhou no limite máximo durante muito tempo e, na reta final, cansou. Não conseguiu definir na Sul-Americana, nem no Brasileiro. Mas fez um ano empolgante que, ao contrário do que andam dizendo, não entrará para a história. Entraria, caso viessem os dois títulos que completariam a tríplice coroa.

Os outros todos concorrentes ao título decepcionaram, cada qual à sua maneira. Para ficar nos paulistas: o Palmeiras colocou um pouco a cabeça fora d'água no final, mas seu balanço de ano é muito negativo. O mesmo se diga para o São Paulo que, a certa altura, pareceu engrenar e desandou. Tem de se repensar por completo. O Santos é um caso à parte, pois logo elegeu o Mundial como objetivo e largou o Brasileiro. Qualquer que seja o resultado do torneio no Japão, já contabiliza ano ótimo. Segurou Neymar e outros jogadores, voltou a ganhar uma Libertadores depois de 48 anos e reelegeu um presidente de ótima gestão. Preparou terreno para a comemoração do centenário em 2012.

Sócrates. Duas palavras sobre o Doutor, morto no dia da vitória do seu Corinthians. Foi dos maiores que vi jogar. Era um daqueles raros jogadores que introduziam o inesperado na rotina do jogo. Quer dizer, produzia com frequência momentos poéticos na prosa do cotidiano. Fosse por um passe de calcanhar, por um deslocamento inesperado em campo, um arremate a gol, sempre deixava a marca do seu estilo. Um atacante mais banal teria cruzado ou dado um chutão contra a meta italiana naquela partida triste de Sarriá. Ele fez o que não se esperava e colocou a bola no espaço entre o goleiro Zoff e o poste. Era original. Também o era fora de campo porque, numa profissão de alienados submissos, era barbudo, cabeludo e dono de aguda consciência social. Viveu como bem quis, digam o que disserem os moralistas de plantão. Que esteja em paz, porque muito deu em vida a todos nós, que amamos o futebol-arte e as ideias fortes.

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