Quando vira o fio

A tarde de ontem mostrou três equipes que desandaram no Brasileiro, embora com perspectivas distintas até o fim do ano. O Corinthians se esforça para atirar pela janela começo espetacular: coleciona tropeços, sai da liderança, e apesar de tudo continua na briga pelo título. O Flamengo destrói, com empates e derrotas em cascata, imagem de eficiência na Série A, e está a um passo de jogar a toalha. O Palmeiras consolida seu papel de ator de segunda linha e prepara-se para passar mais um ano em branco.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2011 | 00h00

O clássico com o Santos, no Pacaembu lotado em preto e branco, consolidou a ruptura do encanto corintiano. À medida que a competição embica para a reta decisiva, ficam na saudade as nove vitórias e um empate nos dez jogos iniciais. O aproveitamento que ultrapassava os 90% virou fumaça com cinco derrotas nos últimos sete jogos. O retrospecto retumbante na largada funciona agora como alento e como revolta.

As estatísticas desfavoráveis não são o lado ruim da turbulência alvinegra - muitas vezes não passam de números manipulados de acordo com o interessado. O que desencadeia protestos, como ocorreu ontem na saída dos jogadores, é a fragilidade atual. O Corinthians guerreiro, solidário, simples e eficiente de antes transformou-se em equipe insegurança, indecisa, frágil. Levou 3 a 1 de virada, mas poderia ter apanhado de 5 ou 6, se Júlio César não fizesse milagres e se Alan Kardec e Felipe Anderson não desperdiçassem chances claras.

O Corinthians trafega com muita facilidade, durante uma partida, entre a glória de quem tem a obsessão de conquistar o campeonato pela quinta vez e o abismo dos que não sabem o que querem. Ou pior, dos que não têm capacidade para sustentar condição de protagonista. A liderança parece que pesava, é fardo do qual pretendia livrar-se.

A ilusão da retomada do primeiro lugar veio com o bom começo e o gol de Liedson aos 12 minutos. A vantagem deveria funcionar como aviso para o Santos: "Olha quem manda aqui." Ilusão. Em dois lances seguidos, aos 13 e aos 15, Júlio César impediu o gol. Jogadas semelhantes: bolas levantadas para a área e com a defesa a olhar santistas subindo para desviar de cabeça. Com pequenas variações, assim surgiram os gols que derrubaram o Corinthians. Foram bolas cantadas e filme repetido.

Manjada também a lentidão corintiana em seu sistema defensivo, que se aguentou até o momento em que Ralf e Paulinho cansaram e deixaram os zagueiros expostos à velocidade de Neymar, Borges, Alan Kardec. O Corinthians não teve nem a compensação de responder com cartadas criativas, pois Alex não foi o "maestro" do meio-campo, assim como não funcionaram Danilo e Jorge Henrique, que entraram no segundo tempo. Emerson brigou, Liedson fez um gol - e não muito mais do que isso.

O Corinthians naufragou, mais uma vez, por causa de suas limitações. Por isso, devagarinho permitiu a aproximação dos concorrentes e se deixou ultrapassar por dois (Vasco e São Paulo). Claro que do outro lado havia um Santos em busca de afirmação, que teve o mérito de superar-se e de provar que tem gás para cumprir papel digno até o fim. Menosprezar o desempenho de Neymar e sua turma seria ignorar a qualidade do campeão da América.

O Santos venceu, não há dúvida. Mas o Corinthians não inspira o temor de antes, e isso pode custar-lhe o título. Depois de amanhã, contra o São Paulo, será o dia D: retoma o caminho ou desaba tempestade no Parque São Jorge. As nuvens carregadas se formaram por lá. Indesmentíveis.

Tempo fechado também na Gávea e no Palestra Itália. O Flamengo pôs um pé fora da corrida pelo hepta, depois do 1 a 1 com o Botafogo. Nas últimas nove rodadas foram 4 empates e 5 derrotas, com um futebol previsível, quadrado e tedioso. Não adiantam os toques bonitos de Ronaldinho Gaúcho - têm sido tão inúteis quanto as reclamações de Luxemburgo. Só não cravo que o trem rubro-negro descarrilou de vez porque este é o Brasileiro mais maluco que tenho visto.

O Palmeiras está com pé e meio fora da briga. Nesse caso, o risco de a previsão falhar é pequeno. O time de Felipão é o rei dos empates - 11 contra 10 do Fla. Alguém pode lembrar que não é ruim, pois os antigos romanos pregavam que a virtude "está no meio". Sei...O excesso de colunas do meio palmeirenses está mais para sintoma de mediocridade. Que pena.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.