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Ugo Giorgetti
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Quanto vale uma linda história

Uma noticia da semana que passou, tristíssima, teve relativamente pouco destaque na imprensa. Trata-se do leilão que na pratica liquida o estádio do Guarani, o Brinco de Ouro da Princesa. O arrematador do estádio foi o grupo Zaffari, dono de vários shopping centers em São Paulo, que imediatamente esclareceu que vai demolir o estádio e destinar o terreno para outros fins.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2015 | 02h04

Faz muito tempo todos sabem da situação do Guarani. Faz muito tempo que a coisa se arrasta de decadência em decadência, sempre com esperanças e promessas de um renascimento que não chega. Agora parece que tudo se aproxima de um desenlace. As dívidas do Bugre são principalmente com a Justiça do Trabalho e há cerca de 300 credores esperando há anos que suas situações sejam regularizadas.

Pelo que entendi, ainda há possibilidade de recurso e aparentemente tanto o clube quanto a prefeitura de Campinas vão exercer esse direito. Espero que o façam pela simpatia que tenho por esse clube, mas as providências para deter o fim do estádio me pareceram um pouco vagas. Beneméritos que entrariam com o dinheiro necessário, empresários interessados em preservar o estádio, patrocinadores de último momento finalmente abalados pela grave crise, e, por fim, a própria prefeitura, que cedeu inicialmente o terreno para a construção do estádio e que se acha envolvida na sua existência. Ou na sua morte.

Vou torcer para dar certo, mas nos últimos anos tenho ouvido sempre a mesma conversa, em suma, que um milagre estaria em vias de se produzir através do qual o Guarani seria salvo.

Nunca entendi como um clube de torcida grande, de uma cidade riquíssima, com enorme tradição no futebol brasileiro tenha chegado a essa situação. Lembro do Guarani com admiração. Lembro daquele time imbatível Campeão Brasileiro de 1978, com aquele meio de campo fantástico de Zé Carlos, Zenon e Renato. Com um centroavante que encantou não só o Brasil, como depois a Europa: Careca. Um time que pensei tinha se tornado definitivamente grande.

Nenhuma equipe do interior de São Paulo, antes ou depois, jamais repetiu o feito do Guarani. E, no entanto, isso não serviu para nada. O Guarani encolheu de modo inexorável. Numa das sentenças exaradas, acho que não essa última, a juíza Ana Claudia Torres Vianna faz algumas considerações e perguntas muito interessantes. Referindo-se a outros valores que, em sua opinião, fazem parte do patrimônio de um clube: "Quanto vale um clube de futebol? Somente seus bens materiais? Não. O futebol é alimentado pela paixão humana. A paixão de seus torcedores. São grandes as movimentações financeiras de clubes do porte de um campeão brasileiro. Qual então o motivo do encalacramento atual com dívidas previdenciárias e fiscais?"

São perguntas embaraçosas, destinadas a, talvez, não apenas à comunidade bugrina, mas a todos que transitam pelo futebol. Realmente quanto vale uma história, por mais gloriosa? Uma marca deixada na vida esportiva do país? Quanto valor simbólico possui um campeão brasileiro?

De minha parte a resposta não é muito animadora. Nos dias atuais o que vale do Guarani é o seu terreno. Só. E como a paixão de seus torcedores não pode ser medida em reais, também não vale nada. Como tantos outros clubes, a trajetória do Guarani se desenvolveu num mundo que não existe mais. Um mundo abolido, quando tinha sentido falar em lenda, fábula, feitos, enfim no tempo do belo futebol barato. Se isso já teve um valor, e teve muito, hoje não tem mais.

Lamento mais do que qualquer um, mas acho que o não só para o Guarani, mas para outros clubes tradicionais, não há muito como voltar atrás. Talvez pessoas mais próximas do clube tenham outras ideias e pensem de outra maneira, mas teriam então necessariamente de dar resposta à última pergunta da juíza: "Qual então o motivo do encalacramento atual?"

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