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Que centenário é esse?

Depois de dois rebaixamentos muito próximos e mais decepções do que títulos importantes neste século, o centenário vai chegar com o que poderia trazer de pior, uma insegura e minúscula sensação de alívio oferecida pela vitória sobre o Coritiba. E nada mais. A comemoração palmeirense era para ser bem diferente, no estádio novo, com o time forte e a instituição saudável.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2014 | 02h00

A primeira vitória de Ricardo Gareca no Brasileirão vai permitir que a festa do 100 anos da Sociedade Esportiva Palmeiras, nascida Palestra Itália, transcorra com a equipe de futebol fora da última posição da tabela, mas com míseros 33% de aproveitamento dos pontos disputados.

O treinador argentino certamente não imaginava encontrar tanta dificuldade. Também não tinha noção do absurdo político que moldura o clube, a ponto de transformar a disputa pelo poder em algo mais fascinante e previsível que o time dentro de campo.

Já perdeu a graça. Eleger um presidente a cada dois anos é parte da instabilidade que embala o problema. Quando a eleição termina, imediatamente começa a seguinte. E sempre fervendo, com mil grupos, divisões e subdivisões. É quase impossível manter o time fora disso. Um pouco de harmonia ajudaria demais.

O discurso da austeridade não adere, o torcedor só pensa em títulos, não se importa para que lugar a insanidade dos cartolas vai conduzir a associação. A conta não fecha. Parte da culpa é do ambiente desregulado do futebol brasileiro, avalista das loucuras e dos rombos no orçamento. Isso explica a importância das travas que a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte precisa trazer para brecar e punir irresponsabilidades administrativas.

O remédio para a crise está dentro de campo. Somente vitórias poderão afastar a possibilidade de um terceiro rebaixamento. Bom o time não é, mas sofre mais do que deveria porque a má fase extrai a confiança quando se avoluma como agora.

Com 1 a 0 no placar e um jogador a mais, não havia motivo para ceder tanto espaço ao Coritiba, outro que está em situação periclitante. A cena define o conflito entre quem desconfia de sua virtude momentânea e o outro que já não tem mais nada a perder, pois perder é sua sina. A primeira vitória de Gareca ajudou a demitir Celso Roth. Rotina.

A sombra de Ronaldinho rondou a rua Turiaçu. O Gaúcho poderia ser uma referência técnica importante. Hoje não seria solução para a maioria dos clubes do Brasileirão, mas poderia ser útil ao Palmeiras pelas circunstâncias. Cabe no time, não no orçamento. A menos que o dinheiro venha de outras fontes, não das que secaram para Alan Kardec.

A vida de Ricardo Gareca não tem sido fácil. Nas mãos do argentino, além do futuro do Palmeiras, está a chave da porta para outros treinadores estrangeiros no Brasil. Encontrar o time ideal e identificar quem é capaz de reagir diante da pressão e da crueldade da tabela parece cada vez mais difícil.

A vitória de sábado traz uma esperança. O zagueiro Lúcio falou forte antes da partida, arriscando-se a piorar um ambiente que parece não ter salvação. A favor do jogador pesa a experiência dos seus 36 anos e a estrela no peito de campeão do mundo pela seleção em 2002.

O Palmeiras não merecia chegar ao dia do centenário do jeito que chegou. Desentendeu-se com a construtora do estádio, não foi capaz de reconstruir a equipe após mais um rebaixamento e mostra, novamente, que de saudável a instituição não tem nada.

A data é um convite à reflexão. De quem governa e de quem sonha com o poder. O Palmeiras temido, corpo e alma do futebol, transformou-se em escuridão. Trocou o sentimento de respeito pela compaixão dos torcedores rivais. Fora o festival de piadinhas infames. Quando isso acontece, é sinal de que a vida está bem pior do que se imagina.

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