Imagem Paulo Calçade
Colunista
Paulo Calçade
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Que oportunidade!

Bastou um jogo, ou mais precisamente o primeiro tempo contra o Uruguai para a Espanha encantar com seu estilo sustentado pela posse de bola. Quem possui mais tempo de arquibancada geralmente entende melhor essa forma de expressão futebolística. Passamos tanto tempo produzindo lixo no Brasil que é mesmo possível perder a graduação entre o jogo comum e o de alto padrão.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2013 | 02h05

Um dos pontos mais fascinantes dos campeões mundiais é a personalidade extraída do Barcelona, de onde saíram 7 dos 11 jogadores que começaram a partida contra os uruguaios. Se um dos grandes problemas de uma seleção é ter poucos dias para treinar, os espanhóis sabem até o que o companheiro está pensando.

Diante dessa riqueza, transformada em títulos e confiança, a equipe de Vicente Del Bosque até pode surpreender com variações táticas, mas o conceito permanece imutável, manda no jogo e ponto final.

É onde entra o Brasil nessa história, que hoje enfrenta o México. O zagueiro Thiago Silva tem razão quando defende que a equipe "tem de encontrar seu modo de jogar e não ficar preocupada com as outras".

O capitão da seleção não trata as virtudes dos adversários com indiferença. Apenas sabe que o primeiro passo para se formar um time de verdade é a conquista da confiança, até mesmo de um estereótipo. Para quando perguntarem pelo Brasil, a resposta for uma série de qualidades formuladas por um estilo.

O México é uma etapa dessa evolução. Por isso cabe ao time nacional preocupar-se, agora, mais com ele mesmo. Com a solidez defensiva, por exemplo, que passa pelo posicionamento correto dos laterais. Em seus sonhos, Daniel Alves e Marcelo estão sempre no ataque. Já nos pesadelos de Felipão, ausentam-se da defesa ao mesmo tempo.

Com ambos espetados no campo ofensivo e Paulinho na área, o risco de Luís Gustavo, David Luís e Thiago Silva serem batidos é enorme. É quando o treinador pede equilíbrio, ao ver sete jogadores atacando simultaneamente.

Hoje, a Espanha pode. O Brasil ainda não está pronto. Se contra o México a seleção conseguir harmonia tática defensiva e melhorar a condução da bola para o ataque, terá cumprido o segundo passo de sua trajetória. Desde que vença.

Os espanhóis são quase um time com a camisa da seleção. Os brasileiros são quase uma seleção tentando formar um time. Enfrentá-los na final é uma possibilidade, mais que isso, uma oportunidade de avançar na preparação. Que oportunidade!

Enquanto isso... No dia 14 de julho de 2014, enquanto o mundo ainda estiver comentando os detalhes da final da Copa do Mundo, disputada um dia antes no Maracanã, o senhor Blatter vai arrumar as malas e partir de volta para casa. Chega de Brasil, viva a estabilidade da Suíça, que abriga em seu território a maioria das entidades administrativas do esporte, atraídas por benefícios fiscais.

O ritmo das obras no País causou muitos problemas aos donos do futebol, mas nenhum outro povo os ajudou a lucrar tanto com um de seus eventos. Ao final da Copa, US$ 5 bilhões serão depositados na conta da Fifa, além da constatação de que os brasileiros estão divididos entre os trouxas e os oportunistas. E, agora, os revoltados.

Mas eles não esperavam que essa gente despertasse justamente no tal evento teste. Se as manifestações também são uma amostra do que vem por aí, imagina na Copa. O problema está no aumento do transporte, nas obras virtuais e em tantas outras mentiras do dia a dia.

A 358 dias da abertura do Mundial, somente seis estádios estão mais ou menos prontos. Desde 2007, quando a Fifa bancou a candidatura brasileira, espertinhos usam a Copa do Mundo para enriquecer. O detalhe é que a estrutura de poder do futebol não contava com o revés das ruas. Pode sobrar também para os donos da bola.

Não adianta os cartolas brasileiros se esconderem agora, afinal fazem parte da mesma estrutura política que levou o povo às ruas. Que oportunidade de avançar nas reformas!

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.