Que seja verdade

A lógica joga muito, mas não joga todo dia. Quem enfrenta o Barcelona não precisa esperar pelo fim da partida para saber que terá pela frente um adversário tática e tecnicamente brilhante, de posse de bola na faixa dos 70%, de controle quase absoluto das ações no campo.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h04

Muricy Ramalho acreditou na formação de uma defesa com três zagueiros, mas contra este Barça todo cobertor é curto, a lógica joga muito. Com um jogador a mais na última linha defensiva, a marcação no meio de campo santista ficou ainda mais vulnerável. Apenas Henrique e Arouca para deter a transição de Messi, Fábregas, Xavi e Iniesta, o setor onde toda a base ideológica do futebol catalão é produzida, é pouco. O Barcelona mostrou mais uma vez ter superado a sistematização tática. No lugar dela prevalece o posicionamento, a ocupação de espaços e a circulação da bola, independentemente do jogador.

Para Pep Guardiola, o fundamental é a abertura lateral, ter sempre jogadores pelos lados do campo, expandindo a equipe, função cumprida ontem por Daniel Alves e Thiago Alcântara. Montado em triângulos e treinado para isso, o nível técnico individual absurdo do Barça produz um futebol quase imbatível. Em Yokohama, os dois "pontas" naturalmente prenderam os laterais no fundo do campo. Sobraram, então, três zagueiros para marcar quem?

Se o jogo é construído no meio de campo, com passes curtos, como Arouca e Henrique seriam capazes de impedir a máquina de Guardiola de funcionar? Uma linha de três se justifica quando existe quase a certeza de que o adversário vai se encaixar nela. Contra uma equipe que leva todos os seus adversários para dentro da área, pressiona e triangula a bola como ninguém, o Santos facilitou demais ao espremer a defesa contra o gol de Rafael. O resultado prático foi o desaparecimento de Neymar, Ganso e Borges, praticamente eliminando o contra-ataque, o caminho mais consistente para a vitória devido a característica do Santos.

"Aprendemos a jogar futebol com o Barcelona", disse Neymar, decepcionado, maduro o suficiente para perceber que não é possível imitar o futebol do adversário, mas que admirá-lo é o caminho para tentar entendê-lo e, quem sabe, trazê-lo para mais perto da realidade brasileira.

O Barça não pode ensinar ao Brasil como se pratica o futebol brasileiro. Afinal, esse estilo de posse e de passe pode surpreender a muita gente, mas não deve ser tratado como novidade por aqui. Por mais problemas táticos que o Santos tenha apresentado, é preciso deixar bem claro que a partida cumpriu seu ritual técnico, o das diferenças que carimbam em cada time sua identidade.

E nisso o Barcelona é gigante. Com três ou quatro na última linha, dificilmente o Santos venceria o grupo de Guardiola. Deu a lógica, que não entra em campo todo dia, mas tem jogado muito pelo Barça. Neymar tem razão, estamos aprendendo futebol com eles. Que seja verdade.

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