Queda anunciada

A eliminação do Corinthians talvez tenha surpreendido apenas os mais fanáticos torcedores, aqueles que acreditam sempre, para os quais o impossível é um detalhe - e não lhes tiro o direito ao amor obcecado. Os alvinegros ponderados estavam com a pulga atrás da orelha e temiam o pior, mesmo diante de adversário sem lastro como o Tolima. O medo tinha fundamento. Motivos para prever a humilhação existiam, escancarados, e se tornaram reais bem antes do que se imaginava. Ainda assim doeu. E como!

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2011 | 00h00

A desclassificação inédita na preliminar da Libertadores não veio por acaso. Os 2 a 0 de anteontem foram o ápice de sucessão de erros que começaram com a queda no torneio continental de 2010 e se acumularam no mínimo desde a segunda parte do returno do Brasileiro.

A briga pelo título nacional até as rodadas finais deu a falsa impressão de equipe de novo forte, recuperada do trauma "americano" do primeiro semestre, e pronta para a volta por cima. Tão logo a taça tomou o rumo das Laranjeiras, jogadores e dirigentes venderam para a Fiel a tese de que a conquista não veio porque rivais entregaram a rapadura. Prevaleceu a teoria da conspiração, em lugar do reconhecimento das deficiências de um grupo que envelhecia e do indisfarçável declínio técnico.

Com desfaçatez, teve astro a observar que o ano do centenário terminaria em setembro de 2011. Portanto, não se justificava a frustração. O título da Libertadores, que "certamente" viria nesta temporada, coroaria a efeméride. A grande festa teria sido apenas adiada. Conversa fiada! Enganação disfarçada de tirada engraçadinha. Fácil falar de barriga cheia. O mais chato é que houve quem acreditasse, pelo menos como consolo.

O Corinthians entrou em férias certo de que não correria riscos na pré-Libertadores. Afinal, desde a criação do qualificatório, em 2005, nenhum brasileiro desperdiçara a chance. Os adversários, na maioria, eram o restolho dos vizinhos ou um clube tradicional em período ruim. Esses desafios serviam para esquentar nossos times e fazê-los chegar até mais embalados na etapa de grupos.

Houve relaxamento com a perspectiva otimista - uma forma de compensar a decepção pelo fato de o Corinthians ter terminado o Brasileiro em terceiro lugar. O elenco sofreu baixas como as de William e Elias, mas a diretoria não viu necessidade de logo repor à altura. Imaginou-se que a saída de dois titulares não influenciaria tanto no desempenho, apesar da obsessão pela Libertadores.

Não se levou em conta o rendimento decrescente de 2010. O Corinthians do ano passado era menos estável e confiável do que aquele de 2009 - e ainda assim parecia que tudo ia bem. As falhas ficaram convenientemente relegadas a segundo plano, pelas inúmeras ações festivas e de marketing pela passagem dos 100 anos. Não era legal baixar o astral; havia muito dinheiro em jogo. Em diversas ocasiões, escrevi aqui que as comemorações eram procedentes, mas seriam insípidas, se não fossem completadas por títulos.

O Corinthians versão 2011 conseguiu, de cara, superar-se nas desilusões. O meio-tempo excelente nos 2 a 0 contra a Lusa, na abertura do Paulistão, enganou. Depois, vieram empates toscos com Bragantino, Noroeste, Tolima, São Bernardo, e com eles a realidade. Para cada tropeço, uma explicação: início de ano, falta de ritmo, gramado ruim, formação reserva, adversários que se superam....

Restou a promessa de que na Colômbia seria diferente. E foi - mais constrangimento. Incomodou assistir a um time logo dominado, e nocauteado após o primeiro gol. Deu tristeza a impotência do meio-campo. Apertou o coração ver Ronaldo como sombra de si mesmo. O ídolo de tempos atrás pode ser ótimo parceiro comercial, mas deixou de ser solução em campo. A história dele não merece isso. O Corinthians muito menos.

Salve, Rivaldo! E não é que ele estreou como um menino?! Com direito a golaço com assinatura de mestre. Rivaldo , 38 anos, fininho, gastou a bola, nos 3 a 2 do São Paulo sobre o Linense. Eis aí um fenômeno.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.