Queimou na carne

A frase de Tite para definir o processo de amadurecimento do Corinthians até estar a um empate de sua primeira final de Libertadores remete à derrota de Ibagué, contra o Tolima: "Queimou na carne!" Ele fala da saída do estádio da Colômbia, com torcedores apedrejando o ônibus a caminho do hotel, dos treze carros danificados no retorno ao CT, da pressão da torcida antes da partida seguinte. Se perdessem para o Palmeiras após a eliminação na pré-Libertadores, muitos jogadores não estariam mais no clube.

Paulo Vinícius Coelho, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h05

A derrota é fundamental na formação do caráter de um time. Não existiria o Brasil de 94 se não caísse para a URSS na final olímpica de 88, ou para a Argentina de Maradona em 90. Talvez não houvesse a seleção de 70 sem o fiasco de 66.

O Santos de Neymar ainda não sabe disso.

Nem o vexame dos 4 x 0 com o Barcelona, nem o fato de ter sofrido o mais discutido revés dos últimos tempos queimou a carne da equipe de Neymar e Ganso. O futebol brasileiro apanhou mais do que o Santos naquele dia.

Entre os candidatos ao título da Copa do Brasil, o São Paulo apanhou ano passado com declarações de seu presidente e pela consequente reformulação do início do ano. Mas a derrota queimou mais a carne do Palmeiras. Ninguém se esquece do dia seguinte à queda para o Goiás, nas semifinais da Copa Sul-Americana de 2010. Nem Felipão. A lembrança servirá de exemplo todos os dias, até a segunda semifinal contra o Grêmio.

Naquele day after, o então diretor de futebol, Wlademir Pescarmona, pediu uma conversa com os jogadores. Vestiário lotado, todo o elenco atento, Pescarmona xingou todos, de vagabundo para baixo. "Eu fiz o que qualquer palmeirense queria fazer. Não posso dizer qual foi o efeito, porque deixei o cargo no mês seguinte", diz Pescarmona.

Se a intenção foi boa, o resultado foi desastroso. Marcos, Pierre e Deola cumprimentaram o diretor pela cobrança, inédita no clube. A maioria chateou-se com Felipão, impassível diante do desabafo de um torcedor travestido de dirigente, xingando dentro do vestiário, lugar sagrado dos boleiros.

A ferida só cicatrizou, a paz só voltou a existir, depois da chegada do gerente de futebol César Sampaio, intermediário entre as aflições do grupo e a justa cobrança do treinador.

A derrota dói e ensina.

O Santos é dos craques. O Corinthians, a equipe. Na ética dos boleiros, ai do gênio, se não for do time. Neymar é, Ganso também. Hoje, na Vila, talvez só falte uma coisa para o amadurecimento definitivo: uma dor como a de perder para o Corinthians.

As melhores seleções. De toda a Eurocopa, 37% dos gols nasceram de cruzamentos e cabeçadas. Discute-se, no Brasil, se há mais bolas lançadas sobre a área do que o necessário. Há. Se houver tabela, drible, penetração, muito melhor. Mas o mau do jogo aéreo não deixou os campos ingleses dos anos 80 para desembarcar apenas no Brasil. É praga mundial. Ou fruto da falta de espaço, dos jogadores capazes de correr 12 quilômetros por jogo, o dobro do que se corria na década de 70. Nesse cenário, Espanha e Alemanha sobram. Jogam como equipe e têm craques, um misto de Santos x Corinthians.

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