'Quel scenariô!'

Lembro-me de um locutor da televisão francesa, durante a Copa de 1998, que dizia "quel scenariô!" cada vez que um drama ou apenas algo inusitado começava a se desenrolar em campo.

Verissimo, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2014 | 02h03

Qualquer coisa que dê um bom script merece o entusiasmo dos franceses, mas o nosso locutor exagerava.

Tudo, para ele era um "scenariô" pronto para ser filmado, o que transformava cada jogo da Copa narrado por ele, por pior que fosse, num épico.

Não sei se o francês está acompanhando a seleção do seu país no Brasil.

Se estiver, eu gostaria de saber o que ele chamou de "quel scenariô!" com mais entusiasmo neste Mundial até agora.

A queda da Espanha daria um bom filme, sem dúvida nenhuma. O ocaso de deuses sempre interessa, e o roteiro poderia interligar o fracasso da seleção espanhola com a desistência do rei da Espanha, que abdicou em favor de seu filho.

Ao futebol que maravilhou tanta gente e desapareceu em menos de uma geração o que substituirá?

Pela cara do príncipe que assumiu o trono da Espanha já se sabe que alguma majestade se perdeu na mudança.

A quase eliminação da Inglaterra de Rooney também mereceria um "quel scenariô!".

Os inventores do futebol mais uma vez decepcionaram. Mas os ingleses têm mesmo uma tradição de não completarem o que começam.

Fizeram a primeira revolução republicana da história e, depois, voltaram atrás e restabeleceram a monarquia.

Começaram a revolução industrial, mas perderam a liderança do mundo capitalista para os americanos e os alemães; acolheram os primeiros teóricos das revoluções socialistas que aconteceram em outros lugares; e só foram campeões do mundo no esporte que eles mesmos criaram uma vez, em 1966, jogando em casa e com suspeitas de maracutaia.

Isso apesar de sua Premier League ser o campeonato nacional mais rentável do planeta. Sua derrota não chega a ser razão para um "quel scenariô!".

Acho que um "quel scenariô!" merecido seria para a vitória do Uruguai sobre a Inglaterra, ontem, com dois gols do Suárez, recém-saído de uma cirurgia.

Um herói pula da cama para salvar seu país, num jogo que também tem um outro uruguaio morrendo, ressuscitando e insistindo em continuar em campo - Alvaro Pereira.

O único problema é que seria um roteiro inverossímil.

Tudo o que sabemos sobre:
Verissimo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.