Quem disse que todos torcem pelo Brasil?

A seleção brasileira encanta e conquista fãs por todo o mundo. Mas no próprio País ela deixou de ser unanimidade entre os torcedores. Há quem não se empolgue com o futebol verde-amarelo e também aqueles que torcem contra os pentacampeões. Apesar de não haver um controle de quantos são os chamados "antipatriotas", a parcela de antipatia ao grupo canarinho vem crescendo. No site Orkut há pelo menos 10 comunidades dos chamados "do contra", com mais de 5 mil participantes. "Tenho muitos amigos que não se importam com a seleção", comenta Klaus Fiedler. O analista de sistema Gilson Suckeveris também observa um aumento de parceiros com o mesmo conceito. "O distanciamento dos jogadores me faz ganhar adeptos, a cada ano", afirma. "Existem pessoas que até torceram pela seleção, mas hoje não querem saber. E, pelo que vejo, esse número só tende a subir", completa o estudante Edno Franco Silva.

Ana Paula Garrido, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

No quesito aversão à seleção, há tanto estreantes nesta Copa como outros que não gostam do time brasileiro há tempos. Para o professor Ary Rocco, a decisão de virar a casaca é pontual, desta Copa. "Neste ano vou torcer pela Inglaterra, por ser um grupo organizado, bem diferente do Brasil", explica.

Identidade. "Sempre acompanhei a Copa, mas nunca torci pelo Brasil. Apesar de sempre tentarem colocar a seleção como representante do País, nunca consegui vê-la assim", explica Edno. Para outro professor, Wagner Belmonte, o estilo da atual seleção o afastou. "Não gosto desse time burocrático. Em 2006 torci por outras seleções, como França e Portugal, até comprei uma camisa portuguesa", comenta ele, que está torcendo agora pela Argentina.

A maioria, no entanto, muda de arquibancada por causa de alguma decepção com a equipe considerada a melhor do mundo. "Torci até a derrota de 1998. Depois deixei de gostar. Tanto que em 2002, quando o Brasil ganhou, fiquei deprimido e ninguém entendeu nada", conta Klaus, torcedor da Holanda desde aquela época. O motivo, de acordo com ele, está na identidade que ele achou no time. "Não é falta de patriotismo, mas você escolhe um de que mais gosta", defende-se.

Torcer pelo Brasil, para alguns, não é o problema, tanto que vibram com as vitórias de outros esportes, como vôlei e basquete. O futebol é visto por outro ângulo, de bastidor, e afasta possíveis apaixonados pela bola. "Hoje a seleção é de um grupo de empresa de material esportivo, não do povo", diz Gilson.

O estudante Felipe Rocha Pinto, por sua vez, vai contra a mobilização feita em torno da seleção, a cada 4 anos, por causa dos problemas sociais que continuam no País. "É muita falsidade todo mundo torcer na Copa enquanto nos outros anos a população sofre com carga tributária, violência, saúde, transporte...", aponta Felipe.

Para a Argentina? De parceiros a rivais. Curiosamente, muitos brasileiros que não gostam da seleção adotaram como time do coração o arquirrival nacional: a Argentina. Até parece pirraça, mas há quem idolatre Maradona e tenha se tornado fã de Messi. O futebol apresentado pelo melhor jogador da atualidade ajudou a aumentar a torcida. "O Messi é um fora de série. Além disso, a seleção argentina tem todos os ingredientes que ao longo da história foram assimilados ao nosso futebol: ofensivo e envolvente", comenta Wagner.

O jogo com raça dos hermanos encantou o músico Samuel Porfírio do Nascimento há 20 anos, desde a atuação da Argentina na Copa de 90. "Me encantei com a força de vontade do time. Com o tempo isso foi evoluindo e hoje sou um torcedor fanático", afirma.

No começo, a família pensou que seria uma mania passageira. Todos erraram. Até tentaram convencê-lo a torcer pelo Brasil. "Me deram camisa da seleção, mas é impossível mudar."

Outro fanático pela Argentina é o mineiro Tiago Nagib, que nem sequer gostava de futebol, "só de Fórmula 1." Antes, porém, de se encantar pelos argentinos, torceu pelo país vizinho, o Uruguai. "Achava bonita a camisa do Uruguai, mas torcer pelo time era dose", diz, rindo.

O avô, aficionado pela Argentina, também influenciou na escolha. "Sempre escutava tango na casa dele", recorda. Foi assim, aliás, que aprendeu espanhol. Durante a Copa de 94, Tiago, enfim, se rendeu. E a partir daí torce para a Argentina em todas as modalidades. A família achou estranho, mas aceitou. Tiago conseguiu convencer os primos Thales Hermógenes e Lucas Freire, torcedores do Brasil, a vestirem a camisa argentina no último jogo pela fase de grupo contra a Grécia. "Influência do primo mais velho", comemora.

Com os amigos foi complicado explicar por quem torcia, ainda mais quando ia para a escola com a camisa do maior rival brasileiro. Isso depois de um clássico entre as seleções. "O pessoal queria me matar", diverte-se, como um típico argentino.

Depois de uma temporada de 6 meses na Argentina, Tiago planeja viver lá. Até já conseguiu a permissão de moradia, falta chegar os documentos -a carteirinha de sócio do Boca Juniors, porém, ele já tem.

Além da Argentina, outras seleções atraem torcedores brasileiros. Klaus, por exemplo, gosta da Holanda desde 98. Felipe Rocha também admira o futebol holandês. Ary declarou torcida pelos ingleses, enquanto, Wagner, apesar de estar do lado da Argentina agora, já vibrou com a seleção de Portugal.

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