Quem é Valdivia?

De vez em quando aparece no futebol uma figura quase impossível de classificar. Quando pensamos que o entendemos e sabemos quem ele é, quando finalmente conseguimos formar um juízo definitivo, ele nos surpreende e, mais um a vez, como um mágico cheio de truques, mostra alguma artimanha nova, inesperada. E lá se vão por água abaixo todas as nossas conclusões, tudo o que foi pensado sobre ele.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h05

Valdivia chegou ao Brasil com o apelido de "Mago'', e hoje me pergunto se, mesmo em seu país de origem, já não era essa figura fugidia, inapreensível, surpreendente. Pode ser que ao chamá-lo de Mago estariam talvez se referindo não apenas ao seu futebol, mas à sua personalidade. Já ouvi inúmeras opiniões de palestrinos sobre esse jogador. Elas mudam de acordo com a faceta que ele apresenta no momento. Muitas vezes é o enganador, malandro, "chinelinho'', que simula contusões para não jogar. Mas basta que ele faça uma das suas, uma embaixada, um lançamento primoroso, para mudar tudo. Valdivia passa a ser o craque, o fantasista, o criativo, num futebol cada vez mais carente de talento individual.

Na verdade os próprios torcedores, não conseguindo compreender direito esse jogador estranho, frequentemente o poupam. Valdivia nunca foi hostilizado por uma torcida notória por atacar seus jogadores, mesmo famosos como Vagner Love e Diego Souza. Mas o fato é que nunca a ira da torcida desaba sobre ele. Parece que a torcida está sempre à espera de algo especial que ele vai fazer na próxima vez.

Em nome de algo que pode acontecer no futuro, a torcida o poupa. E acho que faz muito bem. Esses últimos dias são uma prova disso. Em má fase, frequentemente machucado, Valdivia foi vítima de um sequestro que muitos classificam como providencial. Na verdade o sequestro serviu como sólida e inquestionável razão para que ele pudesse romper seu contrato com o Palmeiras, saindo como vítima, com direito a desabafo na TV chilena, etc, etc.

Havia opiniões de pessoas que achavam que Valdivia já tinha até para onde ir. Enfim, sua carreira no Palmeiras parecia praticamente encerrada, quando ei-lo no banco de reservas na quinta-feira, calmamente coçando o bigode recente. E eis que em boa hora Scolari o coloca em campo. E Valdivia começou a tirar da cartola seus truques. Literalmente destruiu o Grêmio. Começou a jogada do gol, fez o próprio gol, fez firulas e malabarismos, mandou uma bola espetacularmente na trave. Acabou com o jogo, como se dizia. E, para culminar, comoveu todo mundo, trazendo para o centro de uma comemoração alucinada o próprio Scolari, num abraço de sinceridade assombrosa.

Suas lágrimas depois do jogo foram absolutamente verdadeiras. Subitamente, nos trinta minutos que ficou em campo mudou tudo. Estava radiante, a torcida estava radiante, o, Palmeiras estava radiante. É ou não é um "mago''?

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