Rob Carr/ AFP
Rob Carr/ AFP

Quem vai sofrer o impacto financeiro do coronavírus sobre o beisebol?

Jogadores defendem um cronograma mais longo, que, obviamente, lhes proporciona mais do que os salários proporcionais

Tyler Kepner, The New York Times

29 de maio de 2020 | 16h01

Kevin Cash usou máscara durante oito anos como um grande receptor de bolas dentro da Liga. Nunca precisou usar uma como técnico até esta semana, quando seu time, o Tampa Bays, deu início a treinamentos voluntários. 

“Nós entramos com máscaras e basicamente não as tiramos”,  disse Cash ao telefone após o treino de quarta-feira. “Se as tiramos por um segundo, é para respirar um pouco. No primeiro dia de treino, o ar não estava totalmente ligado, hoje está melhor. Está quente como o inferno aqui”.

Não foi uma queixa. Ele estava ansioso pelos contatos familiares de um esporte que está suspenso desde meados de março por causa da pandemia. Uma dezena de jogadores, todos moradores locais, trabalhava em grupos de dois – trocando bola, correndo e usando pesos colocados no campo.

Os jogadores não usaram máscaras enquanto se exercitavam, mas suas temperaturas foram checadas e estava proibido usar a sede do clube, a sala do técnico ou as gaiolas de rebatidas. Mesmo assim, foi encorajador ver um progresso tangível depois de semanas de pausa, disse Cash.

“Você se sente mal recebendo telefonemas e mensagens de texto; você quer mesmo é vê-los”, afirmou ele. “Mas foi estranho. Normalmente nos abraçamos ou apertamos as mãos. E claro que não fizemos isto. Procuramos seguir os protocolos que implementamos junto com a MLB”.

A Liga delineou os protocolos de teste e precauções numa proposta para o sindicado dos jogadores em 15 de maio, estabelecendo o distanciamento físico nos bancos, desencorajando banhos no local e proibindo cuspir, mastigar sementes de girassol, uso de bebedouros e outros hábitos familiares.

A Liga quer a realização de uma temporada regular de 82 jogos com as equipes usando seus campos domésticos, mas sem torcedores, pelo menos no início. A perda de receita com jogos em estádios vazios implica um obstáculo previsível, mas desencorajador, ao retorno: como pagar os jogadores.

Os proprietários de times nunca apresentaram formalmente o seu plano preferido – uma divisão 50/50 da receita com os jogadores – porque sabiam que o sindicato rejeitaria a proposta. Quando a Liga finalmente propôs um plano econômico na segunda-feira, esperava receber uma contraproposta. Mas os detalhes irritaram tanto os jogadores que o sindicato talvez nem consiga oferecê-la.

Os jogadores concordaram em 26 de março em receber proporcionalmente o seu salário com base nos jogos disputados. As partes concordaram, então, em “discutir em boa-fé a viabilidade econômica de realizar jogos sem a presença de espectadores”. Para esse fim, haveria uma escala decrescente de salários em que os jogadores que ganhavam menos teriam um corte menor da remuneração e os com os salários mais altos teriam um decréscimo maior.

Um jogador ganhando o salário mínimo (US$ 563.500) receberia US$ 262.000 numa temporada de 82 jogos, ao passo que aquele que ganha US$ 35 milhões ficaria com US$ 7,84 milhões. A estratégia parecia agradar a maioria dos atletas sindicalizados. Mais da metade dos jogadores recebe até US$ 1 milhão. Mas os jogadores mais bem pagos vendo o salário médio indo para US$ 4,4 milhões se uniram numa frente.

“Depois de discutir os mais recentes avanços no acordo com o resto dos jogadores, não há razão para acertar com a MLB quaisquer novas reduções da remuneração”, argumentou Max Scherzer, do Washington Nationals, no Twitter. “Negociamos previamente um corte de salário na versão de pagamentos proporcionais e não existe nenhuma justificativa para aceitar um segundo corte como a informação recebida pelo sindicato. Gostaria de ouvir outros jogadores expressando o mesmo ponto de vista e acho que a estratégia econômica da MLB mudaria completamente se toda a documentação for levada a público”.

Scherzer, que faz parte da subcomissão executiva do sindicato, falou da frustração dos jogadores que, embora seus salários sejam conhecidos, os dados financeiros são privados. As equipes não compartilham os lucros extraordinários com os jogadores, mas agora querem que eles dividam o ônus devido à ausência de receita dos jogos obtida com os ingressos e concessões.

Os jogadores defendem um cronograma mais longo, que, obviamente, lhes proporciona mais do que os salários proporcionais, mas a direção dos times acha que vai arcar com um prejuízo maior. E teme também que ampliar o cronograma de jogos até novembro coincida com uma segunda onda do coronavírus e ameace uma pós-temporada lucrativa.

A Liga espera fechar um acordo na segunda-feira para reiniciar o treinamento de primavera em 10 de junho. Mas esta é uma data flexível e no ínterim as partes ao que parece teriam muito a perder arruinando uma temporada por causa de finanças durante uma pandemia.

Cash disse que deseja apenas retornar à escalação e os arremessos, e como usar melhor o cronograma expandido. O que pode ser uma força no caso do Rays, que venceu um Wild Card na última temporada e progrediu com um orçamento apertado cultivando astutamente o jogo de fundo.

Cash vê parte do time com seus olhos, acima de um tipo diferente de máscara do que aquela que usava como jogador. No momento, porém, está entre dois lados opostos, esperando que os proprietários de clubes e os jogadores encontrem uma solução.

“Sendo um antigo jogador, compreendo bem como essas negociações vão e vêm. Só espero que os dois lados reconheçam que todos vão sofrer algum tipo de revés neste ano e seria insensato achar que isso não ocorreria”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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