Quênia detém hegemonia entre fundistas

Os rankings mundiais, dos 1.500 metros aos 10 mil, e os resultados de corridas de rua, dos 15 km à maratona, revelam a superioridade dos corredores do Quênia no atletismo de fundo. Nomes quenianos compõem pelo menos a metade das listas dos melhores da temporada da Associação Internacional de Federações de Atletismo (Iaaf), nas provas que exigem resistência e velocidade. Também na tradicional corrida de São Silvestre eles mandam: somam 14 vitórias desde a fase internacional (contra 12 dos brasileiros). O segredo do sucesso? Uma série de fatores poderiam ser colocados numa pirâmide de corrida.Na base estariam as variáveis fundamentais, como viver em altitude, andar muito desde pequeno (muitas vezes descalço, em tribos que lidam com o gado), os ancestrais e a resistência à dor; no meio estariam os cuidados atléticos, como dormir bastante, ter hábitos alimentares saudáveis e comer alimentos não industrializados; e no topo, o treino duro. "Eu gostaria de saber mais sobre esse tal segredo, fazer o que eles fazem e ganhar como eles ganham", afirma Clodoaldo da Silva, melhor brasileiro (5º) na São Silvestre, que teve dobradinha do Quênia no pódio, com Robert Cheruiyot e Lydia Cheromei.Dois pesquisadores ingleses, John Bale e Joe Sang, abordam o jeito de correr queniano no livro Kenyan Running. O Quênia começou a emergir como uma nação de corredores ainda na década de 50, coincidindo com a luta pela independência do país.Genética - Bale não crê que o sucesso dos corredores do país possa ser atribuído apenas a fatores genéticos, mas fisiologistas observam que a aptidão por corrida de fundo não pode ser explicada somente por treinos. Os negros, de modo geral, e quenianos, em particular, correm mais sem apresentar sinais de fadiga e isso pode ser atribuído a um componente genético.A província de Rift Valley, composta por 14 distritos e que tem 20% da população do Quênia, de 32 milhões de habitantes, é, curiosamente, a que produz a maior parte dos fundistas bem-sucedidos - cerca de 75%. A tradição de algumas tribos, como os Kalenjin, ajudou a forjar uma geração com bons resultados.Os três milhões de Kalenjin, um décimo da população do Quênia e 0,0005% da mundial, que vivem nas montanhas de Rift Valley, ganharam quase a metade de todos os prêmios das corridas internacionais masculinas. Nessa região, destacam-se os campeões do sub-grupo de Nandi.Com esses resultados o antropologista da Universidade de Berkeley, Vincent Sarich, especialista em antropologia genética, estatisticamente estimou que o habitante da região poderia bater 90% do resto da humanidade. Kalenjin é considerado o lugar ideal para a produção de bons corredores: combina 2.000 metros de elevação com latitude equatorial, tem clima ideal para a atividade física - com dias quentes, noites frescas, baixa umidade.

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