'Quero pegar umas ondas e me divertir'

Taj Burrow. Surfista. Líder do ranking mundial

Entrevista com

Giuliander Carpes, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL/IMBITUBA,SC

Taj Burrow já está há 13 anos no circuito mundial - antes do brasileiro Adriano de Souza, o Mineirinho, havia sido o mais jovem surfista a conseguir vaga no seleto grupo dos 45 melhores do mundo, aos 18 anos. Desde então é apontado como um grande talento. Mas nunca se sagrou campeão do mundo. 2010 pode, enfim, ser sua temporada de redenção. O australiano chega à etapa da Praia da Vila, em Imbituba, na liderança do ranking após ter vencido na Gold Coast e ficado em 3.º em Bells Beach, as duas etapas de seu país natal.

Só que Taj, 31 anos, não quer se sentir pressionado durante o resto das competições, embora costume ir bem no Brasil (foi campeão aqui em 1999, 2002 e 2004). "Agora não quero pensar nos pontos, nas notas das ondas, em quem serão meus adversários. Sempre que ponho este tipo de pressão sobre mim, não vou bem", lembra.

O que você espera desta etapa, já que você é o número 1 agora?

Espero me divertir e, talvez, pegar algumas boas ondas. Só pretendo surfar o meu melhor. Claro que quero vencer, mas não quero colocar este tipo de pressão sobre as minhas costas. Não quero pensar nos pontos, nas notas das ondas, em quem serão meus adversários. Sempre que ponho este tipo de pressão sobre mim, não vou bem. Vou tentar pegar boas ondas, dar alguns aéreos e me divertir. Funciono melhor desta forma.

Você costumar ter bons resultados aqui, não?

O Brasil tem sido bom para mim. As ondas aqui são muito boas e consigo relaxar e curtir bastante. As pessoas também costumam encher a praia durante o campeonato, há muitos fãs de surfe no Brasil, e isso me entusiasma bastante. Espero poder manter os bons resultados aqui.

Você sempre foi um dos surfistas mais talentosos. Por que nunca ganhou um título mundial até agora?

Eu só não consegui ser consistente durante uma temporada inteira. Para ser campeão mundial, você tem de treinar muito, ser muito focado, ter muita fome e não pode sofrer lesões. É um grande trabalho. Meu foco sempre muda de uma competição para outra e não consigo ter um ano inteiro bom.

Mas isso parece não incomodar.

Não, isso não me incomoda mais. Eu costumava ficar muito preocupado, me cobrava que precisava ganhar um título mundial, mas isso não funcionava bem comigo. Eu costumo ter melhores resultados quando estou mais relaxado, curtindo mais a competição. Acho que vencer grandes competições como Pipeline, Jeffreys Bay, Bells Beach já significa muito. Tenho orgulho destes títulos e, se não conseguir ser campeão mundial, terei eles para mostrar que tive uma carreira vitoriosa.

Você acha que esse tipo de pressão prejudica os brasileiros? O Brasil é uma das únicas potências que ainda não tem um campeão mundial, apesar de ter grandes surfistas. Definitivamente a pressão afeta de uma maneira muito forte. Algumas pessoas têm performances melhores sob pressão, mas comigo não funciona. Com certeza, esta é a principal razão para o Brasil ainda não ter um título.

A gente pensa que a vida de surfista é muito tranquila. Vocês viajam o mundo todo, conhecem as melhores praias. Mas também tem o lado duro, não?

Sim, de vez em quando eu tento fazer alguns programas de turista, mas a maioria das vezes eu acabo mesmo chegando num país e indo para a água. Quando fui para a Europa, tentei visitar Paris e outras cidades bacanas. A vida de surfista é muito boa, mas o fato de ter de viajar o tempo todo pode ser muito difícil. Para chegar ao Brasil, demorei umas 30 horas. É muito tempo dentro de um avião. Mas ainda assim estou bem satisfeito.

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