'Quero trazer o cinturão do UFC de volta para o Brasil', diz Antônio Pezão

Em entrevista ao Estado, o lutador paraibano de MMA fala sobre sua infância, família e carreira

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

09 de março de 2013 | 17h50

SÃO PAULO - Dar as mãos para cumprimentar

A pouco mais de dois meses de enfrentar Cain Velásquez no UFC 160, em Las Vegas, na sua primeira luta pelo cinturão, o paraibano de Campina Grande revela, em entrevista ao Estado, qual será sua estratégia para trazer o título da categoria de volta ao Brasil e conta um pouco sobre sua grande amizade com Rodrigo Minotauro, também lutador.

Vítima de acromegalia, popularmente conhecida como gigantismo, Pezão também fala sobre sua recuperação após a retirada de um tumor, em 2006. Aos 33 anos, ele não pensa em outra coisa que não seja lutar e estar com a mulher e as duas filhas. Meio desengonçado, o grandalhão se diz apaixonado pela Disney e não tem vergonha de dizer que gosta de voltar a ser criança.

De onde vem o seu apelido?

ANTÔNIO PEZÃO - O apelido foi em 1997, quando eu comecei a treinar jiu-jitsu. Na época, tinha muito atleta na academia, e o meu tamanho foi o que me destacou. Quando eu cheguei lá, o treinador, Erli Wanderlei, não sabia o meu nome e disse: 'Pezão, vem cá'. Aí pronto... Na minha cidade, se você chegar e perguntar onde mora o Antônio Silva, ninguém vai saber te dizer. Mas o Pezão todo mundo conhece.

Quando você teve o primeiro contato com a luta?

ANTÔNIO PEZÃO - Aos quatro anos de idade comecei a lutar caratê. Eu estava passando por uma apresentação de caratê um dia, vi todo mundo de branco, fazendo os movimentos iguais, e aquilo me encantou. Aí eu pedi um quimono para o meu pai, e ele me deu. Treinei caratê por 13 anos, depois migrei para o jiu-jitsu.

Quando você resolveu ir para o MMA?

ANTÔNIO PEZÃO - Em 2004 eu fiz a minha primeira luta, depois de muita insistência do meu professor. Eu tinha receio, porque eu fui pai muito cedo, aos 19 anos, então tinha de trabalhar e treinar. Tinha medo de me machucar, de perder o emprego. Já pensou se eu quebrasse um dente? Com o dinheiro que eu ia ganhar lutando, não conseguiria colocar um novo no lugar.

Mas no fim ele te dobrou?

ANTÔNIO PEZÃO - Depois de muita insistência eu disse para ele: 'Vamos fazer o seguinte, se tiver um evento, eu luto', só para ele parar de me encher (risos). Só que ele concordou, foi lá e, dois meses depois, fez o evento só para eu lutar. Eu acabei ganhando, me apaixonei pelo MMA e comecei a treinar sério.

Foi uma decisão muito difícil a de se tornar profissional?

ANTÔNIO PEZÃO - Foi bastante, porque eu fui pai cedo, tinha de trabalhar, sustentar uma casa. Graças a Deus eu sempre tive apoio dos meus pais. No início, minha esposa não queria que eu lutasse, tinha medo de eu perder o emprego. Mas com o tempo ela foi aliviando. Foi ela quem me deu o primeiro shorts, da minha primeira luta. No fundo, ela sabia que eu poderia ir muito longe e sempre esteve comigo.

E as suas filhas? O que elas acham de ter um pai lutador?

ANTÔNIO PEZÃO - Tenho uma de 13 e uma de 4 anos. A mais velha já viu luta minha, mas sempre que está passando na televisão, ela vai lá, dá uma olhadinha e volta para o quarto. Fica apreensiva, cheia de adrenalina. Eu vou assistir ao jogo de vôlei dela e fico igual, nervoso, imagina ela vendo o pai lutando?

E a ausência do pai? Elas reclamam?

ANTÔNIO PEZÃO - O mais difícil é o momento pré-luta. Cinco semanas antes, a gente tem de abrir mão de muita coisa, de sair com elas no fim de semana, de ir a um parque, a um restaurante. Porque a gente passa a semana inteira treinando e depois só quer descansar.

Em algum momento você pensou em desistir?

ANTÔNIO PEZÃO - Depois que houve a venda do Strikeforce para o UFC, anos atrás, eu estava muito triste, porque tinha ganhado do Fedor, que é uma lenda do esporte, mas nada mudou. Aí eu via algumas pessoas indo para o UFC e eu não fechava contrato... Foi quando eu liguei para o Minotauro, dizendo que ia desistir. Ele é uma pessoa que eu amo muito, um grande amigo. Ele me disse para ter calma, que era só uma questão de tempo, que eu tinha tudo até para ser um campeão do UFC. Eu o escutei e, graças a Deus, deu certo.

Você acha que, apesar de o MMA estar crescendo muito, ainda é difícil para quem escolhe a luta como profissão?

ANTÔNIO PEZÃO - Hoje em dia continua difícil, com algumas facilidades. Hoje já há empresas que apoiam o atleta que está começando. Porque você pegar um atleta que já está formado é fácil, difícil é dar apoio para quem está começando, em qualquer esporte. Mas tem muita gente nova entrando no mercado, muita gente boa, e isso está melhorando. Só que ainda é assim, muitos começam e poucos continuam.

Você passou por uma cirurgia, para a retirada de um tumor. Como foi esse processo na sua vida?

ANTÔNIO PEZÃO - Em 2006, eu descobri que tinha um tumor benigno que afetava a parte hormonal do meu corpo, que aumentava muito o meu GH, fazendo com que as extremidades do corpo crescessem. No futuro, poderia ser muito prejudicial para mim, por causa de problemas pulmonares, no coração, trazer cansaço. Fiz a cirurgia, fui acompanhado pelo médico, que me disse que eu poderia continuar lutando, que só deveria repousar por seis meses, sem tomar pancada na cabeça.

Quando você resolveu sair da Paraíba e ir tentar a vida fora, lutando?

ANTÔNIO PEZÃO - Em 2005, quando eu tive a primeira oportunidade de ir para a Inglaterra. Depois eu fiquei um ano morando no Rio de Janeiro e estou nos Estados Unidos desde 2007.

Você foi convidado para ir a Inglaterra?

ANTÔNIO PEZÃO - Fui a convite do professor Mário Sucata, ele foi o árbitro da minha primeira luta. Depois dessa luta, eu fui morar na capital da Paraíba e trabalhava no carro forte, e ele dava aula em João Pessoa. Eu fui para a academia dele, e depois de um tempo ele perguntou se eu queria ir para a Inglaterra, porque havia empresários lá querendo investir nisso. Eu logo aceitei. Pedi demissão, vendi meu carrinho, um Fusca na época, fiz uma feira boa, porque se demorasse um pouco, eu estava tranquilo, e assim que chegou meu passaporte, viajei.

Você pensa em lutar no Brasil?

ANTÔNIO PEZÃO - Sim, até mesmo porque eu só tenho uma luta no Brasil, que foi na minha cidade. A cada dia que passa, eu conquisto mais fãs, e para mim seria uma honra poder lutar no meu País, com a torcida brasileira gritando. Eu tive a oportunidade de acompanhar dois UFCs aqui no Brasil e não tem torcida igual. Quem sabe eu não luto até lá no meu nordeste, que agora vai receber o primeiro evento em Fortaleza.

Qual será sua estratégia contra Velásquez? O que você pretende mudar para vencer essa revanche?

ANTÔNIO PEZÃO - Em relação aos treinos, não vou mudar muita coisa. O que aconteceu na primeira luta contra o Velásquez foi uma fatalidade, foi um erro meu. Eu botei a emoção na frente do profissionalismo, era a minha primeira luta no UFC, ele é um grande atleta... Foi me passado uma coisa e eu não segui. O que eu mudei depois da derrota foi a minha cabeça, tanto que colhi bons frutos nas minhas duas últimas lutas.

Como funciona esse treinamento psicológico?

ANTÔNIO PEZÃO - Primeiro de tudo é você estar bem consigo mesmo. Ter a família do seu lado. Eu aprendi muito com a derrota. Às vezes, uma derrota vale mais do que uma vitória. Você não pode deixar a emoção tomar conta do seu corpo, deixar a adrenalina ser mais forte do que você. Então, no dia a dia, a gente vai controlando, vai mudando o treinamento aos poucos, para se habituar ao que vai fazer no dia da luta, chegar lá, equecer tudo e seguir o que foi feito nos treinos.

Para treinos, estar nos Estados Unidos é melhor?

ANTÔNIO PEZÃO - Hoje em dia, todo atleta que quer se destacar, seja no jiu-jitsu, seja no MMA, procura ir para fora. A suplementação é bem mais barata do que aqui, as academias, às vezes, também têm uma estrutura melhor. Mas hoje temos bons centros de treinamento no Brasil também. Agora, como eu vou lutar contra o Cain Velásquez que é muito bom de wrestling, lá eu posso me preparar melhor. Tenho dois grandes profissionais, que já foram para a Olimpíada, e podem me ajudar mais. O mercado brasileiro é mais voltado para o jiu-jitsu, então tudo depende da estratégia e da luta.

E como foi receber a notícia da luta contra Velásquez?

ANTÔNIO PEZÃO - Eu recebi a notícia um dia antes de a mídia saber, mas eu não podia confirmar para ninguém. Eu fiquei feliz, mas só acredito quando vejo. Meu empresário me ligou, falou, mas eu não estava 100% feliz. No outro dia, quando eu vi toda a mídia falando, aí sim eu acreditei. É uma felicidade enorme estar no UFC e ter a oportunidade de lutar pelo cinturão.

Você aceitaria lutar contra o Fabricio Werdum, ou contra o Rodrigo Minotauro, que é seu amigo?

ANTÔNIO PEZÃO - Olha, com o Minotauro não existe a possibilidade. Ele não é apenas um amigo, é diferente. O Minotauro já ajudou a mim e a minha família quando mais precisei, então nem passa pela minha cabeça. Eu abriria mão de qualquer coisa, mas não lutaria contra ele jamais. Com o Werdum, sem problema nenhum.

Mas vocês também são amigos...

ANTÔNIO PEZÃO - Somos, mas é uma amizade diferente, conquistamos isso depois da luta que fizemos. Essa semana mesmo, nós passamos uns quatro dias juntos, para cima e para baixo, e eu brinquei com ele dizendo que ele era um traíra, que no dia 8 de junho vai bater no meu padrinho e depois vai querer tirar o cinturão de mim. É muito bom, a gente brinca muito, mas somos profissionais.

Vai ser tranquilo bater o peso em maio?

ANTÔNIO PEZÃO - Tranquilo. Eu nunca deixei de bater o peso, nunca tive esse problema. Acho até feio um atleta não bater o peso, porque meses antes ele recebe o contrato, sabe que tem que bater o peso. Às vezes acontece de ter uma febre, uma gripe, machucar durante os treinos. Mas, na maioria das vezes, é falta de profissionalismo mesmo.

O que mudou depois da luta contra o Overeem? Agora você tem patrocínio fixo...

ANTÔNIO PEZÃO - Mudou muito depois dessa luta, em relação à mídia, ao reconhecimento do público nas ruas. Muita gente que não conhecia, passou a conhecer, muita gente que não torcida, passou a torcer. Acho que cada fã que consigo é uma alegria muito grande, muita gente me manda mensagem dizendo que não acreditava em mim e que agora torce para mim.

E com o cinturão tudo isso vai ser maior ainda...

ANTÔNIO PEZÃO - Com certeza. Algumas pessoas ainda têm dúvida, têm uma pulguinha atrás da orelha comigo. Acho que com o cinturão mudaria muito o cenário.

Quem é o Pezão fora do octógono?

ANTÔNIO PEZÃO - Adoro estar em casa, com as minhas meninas. Adoro a Disney. Sempre que posso, a gente vai, porque é perto de casa, e todo mundo vira criança. Transmite uma energia muito boa. Dirigir também, gosto muito. Andar de bicicleta, jogar bola...

Brinca de luta com as filhas também?

ANTÔNIO PEZÃO - Brinco. A mais nova bota a luva, aí eu boto a mão e ela fica batendo. A mais nova assiste às lutas, não sai da frente da televisão. Ela vê uma propaganda comigo e fica dizendo 'olha o papai, vai lutar'. Para ela, eu não saio para treinar, saio para trabalhar.

Se um dia elas quiserem lutar, você vai apoiar?

ANTÔNIO PEZÃO - Com certeza. O importante para mim é o esporte. Eu não as obrigo a lutar porque sou lutador. Mas se um dia isso acontecer, eu vou ajudar, passar conhecimento. A mais nova treina jiu-jitsu. A mais velha já treinou. Se elas optarem por isso, terão todo o meu apoio.

Tem hora para parar?

ANTÔNIO PEZÃO - Um dia vou ter de parar, nada dura para sempre. Mas enquanto eu tiver força, disposição, enquanto eu estiver lutando com qualidade, eu quero continuar. A partir do momento que eu perceber que não estou conseguindo mais acompanhar a garotada que está surgindo, aí vou parar. Mas, no momento, não penso nisso e quero ter uma vida longa no MMA.

E o foco agora é o dia 25 de maio...

ANTÔNIO PEZÃO - O foco é o cinturão. Trazer de volta para o Brasil e permanecer com ele um bom tempo.

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