Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Racismo e antissemitismo

Em Paris, na terça-feira passada, o dia do jogo de futebol entre Chelsea e Paris Saint-Germain, cerca de dez torcedores ingleses estavam num trem do metrô. Na estação Richelieu-Drouot, um homem negro foi embarcar no mesmo vagão.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 02h04

Os jovens ingleses o empurraram para fora aos socos, o espancaram gritando e cantando: "Nós somos racistas, nós somos racistas, e adoramos isso! Adoramos isso!"

A cena foi filmada por um corajoso passageiro que estava na estação. O homem, inglês, disse que a filmou porque "sentiu vergonha" do seu país. O filme é de boa qualidade e, graças a ele, será possível identificar os torcedores do Chelsea.

Em outra região francesa, a Alsácia, na cidade de Sarre-Union (na fronteira com a Alemanha), há uma aldeia de três mil habitantes.

Nela há um cemitério judeu com quatrocentos túmulos. Um dia, descobriu-se que 250 lápides haviam sido arrancadas, emporcalhadas e quebradas.

Mais tarde, cinco jovens da cidade entregaram-se à polícia, explicando que queriam apenas brincar.

Jogo curioso! Quebrar estas pedras não é uma coisa fácil.

Antes disso, os jovens escarraram sobre os túmulos, fizeram saudações nazistas, gritaram, grunhiram como porcos e berraram insultos: "Porcos judeus", "Raça nojenta", "Heil Hitler", "Sieg Heil".

Para que reunir os dois incidentes aqui? É notório que racismo e antissemitismo não se confundem.

Entretanto, os jovens ingleses do metrô e os jovens alsacianos do cemitério têm alguns pontos comuns: a estupidez, o ódio pelo outro, o gosto pela violência.

A violação dos túmulos judeus não é algo inédito. Um sociólogo calculou que, desde 1945, três quartos dos cemitérios do interior da Alsácia foram profanados, mas nunca com tanta agressividade.

Desde a sua construção, há séculos, os cemitérios judeus da Alsácia vêm sendo marcados pela infâmia.

Eram construídos fora do burgo, em zonas medíocres, frequentemente no local em que o açougueiro enterrava os restos de animais depois de retalhá-los, como para dizer que um judeu morto não valia mais do que um boi retalhado.

Outra coisa irrita os antissemitas: em hebraico, o cemitério é chamado Ben Ha'Haym (a casa dos vivos), uma bela expressão, que enfatiza que os mortos estarão sempre lá, vivos.

Acaso os jovens imbecis que profanaram 250 túmulos queriam, de certa maneira, matar pela segunda vez e definitivamente, estes "porcos judeus" que sempre renascem?

Hooligans. Quanto aos ingleses do metrô, seu racismo tampouco é novidade. Há cerca de 30 anos, entre os torcedores dos clubes britânicos nascia a nebulosa dos "hooligans".

Posteriormente, a polícia, os clubes e a justiça britânica empreenderam enormes esforços para contê-los. Londres afirma que o hooliganismo foi erradicado ou enfraquecido.

Talvez seja verdade, mas esta erva daninha costuma renascer depois de arrancada.

A prova disso é que, dos 2 mil torcedores que vieram de Londres para assistir ao jogo com o PSG, havia 200 marcados como hooligans, vigiados por 20 policiais vindos de Londres.

Estes 20 policiais não foram suficientes, porque o incidente da estação Richelieu-Drouot teria permanecido ignorado se um passageiro não tivesse filmado esta ignomínia.

Racismo, antissemitismo, queremos crer que estas duas pragas não sejam da mesma natureza.

Entretanto, admitamos que, juntas, formam uma "dupla maldita", que tanto uma quanto a outra são a vergonha das sociedades modernas e que estão tão vivas, tão perigosas hoje quanto ontem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.