Recomeçar do três

Acabou a segunda passagem de Luiz Felipe Scolari pelo Palmeiras. E de maneira melancólica, na forma de demissão na hora errada. Uma ruptura antes inimaginável para técnico com identificação tão grande com o clube, talvez menor só do que aquela de Osvaldo Brandão. (Os torcedores mais veteranos sabem o quanto o antigo mestre foi importante.)

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2012 | 10h14

A saída encontrada pela diretoria não fugiu à regra dos momentos de crise, com a equação mais simplória e desgastada do futebol: o time vai mal, a culpa é do treinador. Ele pega o boné, os jogadores ganham motivação, a torcida se acalma, a barra da cartolagem fica limpa, chama-se um substituto para apagar o incêndio e... e seja o que Deus quiser.

Os números não ajudavam e é difícil referendar as 14 derrotas. Contusões, suspensões, erros de arbitragem pesam, mas não justificam integralmente o retrospecto devastador. O time caminha para a segunda experiência na Série B em dez anos e o treinador tem parcela de culpa. Não se pode eximi-lo, assim como é preciso reconhecer-lhe a fidelidade ao clube, ao assumir muitas vezes tarefas dos dirigentes. Felipão tinha cacife para continuar. Errado achar que o Palmeiras virara refém dele. Talvez tenha virado presa de chinelinhos...

Adiantará pouco a dispensa do técnico, se não mudar a mentalidade no Parque. Nos últimos anos, passaram pela Turiaçu nomes consagrados como Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho, para ficar nos muito badalados, e não satisfizeram. Não tiveram capacidade para devolver à equipe a aura vencedora; de quebra, contaram com menos paciência e respeito do que Scolari. Coincidência o fracasso? Não, só prova de que a raiz do mal é mais profunda do que a eficiência dos métodos do professor do momento.

O Palmeiras sofre de fadiga de ideias que se arrasta há muito tempo. Começou no final dos anos 1970, ainda com o time empolgante (embora frágil) guiado por Telê Santana. Depois, veio a década perdida dos anos 1980. O ressurgimento se deu com o dinheiro da Parmalat, nos anos 1990, para a decadência ser retomada com força neste milênio.

O Palmeiras parou, ficou encalacrado no século 20, perdeu o trem da história em diversas ocasiões e não aprende. Os métodos de sua política de hoje em essência não diferem dos usados pelos antepassados que viviam nas montanhas da Campânia, da Calábria, da Sicília. Antes e agora são movidos por impulsos toscos, com diferenças: os nonnos eram rudes e analfabetos. Porém, leais a seus princípios. Respeitavam a terra de onde tiravam o sustento, amavam a família, eram prósperos. Com essa visão, os imigrantes fundaram o clube.

Os valores bons dos velhinhos do Palestra original foram empurrados para baixo do tapete. Pelo jeito, deles ficaram a prática das vendettas e o gosto pela conspiração e a polêmica. O Palmeiras foi minado pela briga por poder. E o torcedor? Este não quer saber se o comando é da turma da harmônica, do califa, do papaia, do tirano, da bocha. O palmeirense pede respeito por sua paixão e teme que esses grupos, daqui a algum tempo, estejam a disputar só carniça. Tenho pena do aficionado. Numa época em que futebol virou negócio tentador, paixão é sentimento de ingênuos.

Que o time vá para a Segundona, se for inevitável! Que a queda sirva para renovar, e banir quem é palmeirense de fachada. E que o Palestra recomece de três, como o personagem do napolitano Massimo Troisi num filme que não passou nos cinemas daqui. Pois três coisas boas não lhe faltam: torcida, história rica e o novo estádio.

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