Daniel Zappe|MPIX|CPB
Daniel Zappe|MPIX|CPB

Recordista mundial, Alessandro Silva lança as dificuldades para longe

Campeão paralímpico do lançamento de disco vê cegueira como presente

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2017 | 18h04

Em quatro anos, Alessandro Rodrigo da Silva passou de iniciante no atletismo paralímpico a recordista mundial no lançamento de disco, classe F11 (cegos totais). No último fim de semana, o paulista atingiu 44,66 m e derrubou a marca do espanhol Alfonso Lopes-Fidalgo (44,44 m), que perdurava desde 1998. Estabelecendo novos limites no esporte e na vida, ele vê a deficiência visual como um presente.

"Digo que fui presentado porque a deficiência mudou a minha vida para melhor, hoje me sinto muito feliz. Foi difícil no começo, perdi o chão, mas graças à família e aos amigos as coisas melhoraram e cheguei aonde estou", conta o atleta, que também conquistou medalha de ouro nos Jogos do Rio e bateu recorde paralímpico da prova.

A perda da visão, decorrente da toxoplasmose - doença transmitida na maioria das vezes por meio do contato com fezes de felinos -, ocorreu gradativamente e, em dois anos, Alessandro deixou de enxergar totalmente com o olho esquerdo e passou a ver uma luz bem leve com o olho direito.

"Comecei a perder a visão na época em que trabalhava como químico de uma empresa, senti um desconforto na visão e fui ao médico fazer alguns exames, em cima de alguns testes foi descoberto que eu tinha essa doença", explica, sem saber ao certo a data do contágio e como se deu a transmissão da doença.

O recordista mundial e paralímpico teve de reaprender a viver a partir de novos estímulos. Aos 34 anos, Alessandro sente falta de dirigir e de ter sua independência total, admite também que o espaço urbano ainda é bastante hostil aos deficientes físicos e visuais. O vai e vem de carros, o lixo depositado nas calçadas e a irregularidade no pavimento são alguns dos entraves. "Isso acaba me deixando inseguro para andar na rua", justifica.

O deslocamento de Alessandro é constante, já que mora em Mauá, treina três vezes por semana na Arena Caixa, em São Bernardo do Campo, e duas em São Caetano do Sul, no CT do clube BM&F Bovespa. Conheceu o atletismo paralímpico a convite do técnico Walter Agripino, em 2013, e mostrou potencial desde a primeira competição. Antes de perder a visão, mantinha uma vida ativa, com a prática de musculação e artes marciais, pensando apenas em seu bem-estar.

A rotina de preparação intensa será mantida até o Mundial Paralímpico de Atletismo, em julho, em Londres. Seguindo o ditado "em time que está ganhando não se mexe", o campeão paralímpico quer continuar sua escalada e já está em alerta: "O pessoal está querendo me pegar, vindo com tudo para me passar."

 

Tudo o que sabemos sobre:
AtletismoParalimpíada

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.