Reflexões de fim de ano

Amigos, vamos chegando ao final do ano, isto é, ao tempo de balanços e rearranjos. Não conheço ninguém que não deseje um 2015 melhor que 2014 - a não ser, claro, os catastrofistas de sempre. E, mesmo eles, para esconder a plumagem de urubu, formulam seus votos às avessas entre dentes, de bico calado.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2014 | 02h03

Ninguém quer ser agourado, mas existe sempre no Brasil esta filosofia do quanto pior melhor. Ora, nós que vivemos tempos sombrios, sabemos que quanto pior, pior mesmo. Por isso não adianta dizer, como até eu já disse por aqui, que os 7 a 1 eram uma oportunidade. Eram mesmo. Mas, na inércia das coisas, tudo vai ficando no passado, como se tivesse sido um mero acidente de percurso (um apagão, dizem Scolari e Parreira) e não sintoma agudo de que o paciente sofre de doença terminal. Ou, pelo menos, de doença grave, a merecer intervenção radical e não um mero AAS, a popular aspirina.

Os rearranjos vão se fazendo. Tite volta para o Corinthians. Oswaldo vai para o Palmeiras, completando sua ciranda por todos os grandes do Rio e de São Paulo. Os clubes se preparam para colocar na vitrine suas promessas, porque precisam fazer caixa para enfrentar as despesas. Gabriel diz que quer ficar, mas é sonho de todo jogador atuar na Europa. Não pelo dinheiro, nada disso. Apenas pelo prazer de jogar com os melhores. Ganso, redivivo depois de boa temporada pelo São Paulo, também já agita sua plumagem na direção da Europa. Enfim, o de sempre. Em todos os clubes vê-se mais ou menos a mesma coisa.

E quem pode culpá-los, a não ser pela falta de imaginação? Todos, sem exceção, encontram-se afundados em dívidas, tão grandes que, literalmente, são impagáveis, a não ser com a liquidação da entidade. Mesmo assim, iriam para o buraco sem ter saldado tudo que devem. De modo que vão empinando os papagaios, como se dizia antigamente. Empurrando o débito de uma gestão para outra

. O Santos, por exemplo, vendeu um time inteiro de jogadores promissores e alguns craques, entre eles o maior surgido no futebol brasileiro nos últimos anos. Qual o resultado financeiro? Nenhum. Acaba de eleger novo presidente que terá, como tarefa primeira, administrar uma dívida gigantesca. Dá para entender? Eu não consigo. Hoje de manhã conversei com um amigo cineasta, flamenguista. Ele dizia que seria preciso um diretor investigativo como Michael Moore para desvendar os mistérios do Flamengo, o time mais popular do país, com torcidas imensas em todas as regiões e que vive de pires na mão, incapaz de montar um time aceitável. Como é possível?

Quando você ou eu estamos no vermelho, sabemos qual é o problema. Gastamos mais do que ganhamos. Com os clubes brasileiros não é diferente. Por mais que a arrecadação tenha aumentado nos últimos anos, continuam pagando salários exorbitantes, contratando mal e desperdiçando dinheiro. Pior: por mais que paguem salários (e "direitos de imagem") milionários, não conseguem convencer os jogadores de que é preferível ficar por aqui. A equação não fecha. E nunca fechará, a não ser que o modelo a que o futebol brasileiro se acomodou nos últimos 20 anos mude de maneira radical.

Como o tal modelo é exportador-extrativista, não podemos oferecer espetáculos atraentes, que encantem o público e tornem nossas competições vendáveis no exterior. Negociamos o artista e não o espetáculo, convém lembrar. De modo que, no plano interno, tivemos de nos acomodar a um patamar técnico mais baixo, de segundo escalão. Tudo é decorrência dessa estrutura. Quem sustenta em pé esse edifício em ruínas? Apenas ele, sua excelência, o torcedor, que mal ou bem vai aos estádios, compra a camisa do time, paga a TV a cabo, e mantém viva sua paixão no dia a dia. Para o torcedor de verdade, o Flamengo, o Corinthians, o Palmeiras, o Vasco, o Santos, o Náutico, o Sport, o Vitória, o Bahia e todos os outros são insubstituíveis. É uma questão de afeto, não de mérito técnico. Mas isso dura para sempre? O dia em que torcedor se aborrecer de vez, e a chama se apagar, o futebol acaba.

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