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Reflexos da mobilização

A administração de Ricardo Teixeira na CBF foi responsável pela mercantilização desmedida da seleção brasileira e pelo distanciamento dela com o povo. A mais importante marca do futebol nacional, superior a qualquer clube, virou máquina de faturamento para alimentar um projeto de poder que parecia eterno.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2013 | 02h04

Teixeira se mandou para os Estados Unidos quando teve a certeza de que seu nome ganharia destaque internacional ao ser relacionado a algumas falcatruas do futebol. Recebeu propina da extinta empresa de marketing da Fifa, a ISL, e tirou o time de campo na hora certa. Não tem sido visto por estas bandas durante a Copa das Confederações. Futebol e povo não o atraem.

Difícil acreditar que Joseph Blatter desconhecesse a maneira de operar de um dos cartolas mais importantes de seu comitê executivo. Experiente, ele foi secretário-geral da entidade e assumiu o poder em 1998, com a aposentadoria de João Havelange. Sabe como funciona. Blatter conhece os meandros, as linhas e as entrelinhas do poder. Mas com ele no comando os problemas só se tornaram públicos quando houve interesse, quando ameaçaram seus projetos. A presidência da Fifa tem seus compromissos.

Políticos de todos os calibres e colorações acompanharam a escolha do Brasil para a sede do Mundial de 2014. Blatter tem razão quando afirma que sua entidade não impôs o evento ao País. Os representantes do povo estavam convictos de que seus representados abraçariam qualquer coisa para fazer do Mundial um sucesso.

Não está fácil acompanhar a Copa das Confederações. Na quinta-feira, o segundo tempo de Nigéria e Uruguai concorreu diretamente com um milhão de brasileiros nas ruas, a maioria pacífica, protestando contra tudo.

Assustado e pressionado pelos patrocinadores da Fifa, Blatter se mandou para o Mundial sub-20 na Turquia, mas promete voltar. A Copa é um grande negócio, está ameaçada, mas talvez sirva para ensinar aos políticos brasileiros um pouco de democracia. Aí está o tal legado, o fim da linha para muita gente.

No meio desse caminho, agora pavimentado por balas de borracha e bombas de efeito moral, existe a seleção brasileira, que não tem culpa de nada, é vítima. Tem sido sistematicamente utilizada para fins políticos e manutenção do poder na CBF. O que se espera dela é que vença o Mundial no próximo ano, apesar do despreparo e dos desmandos da cúpula do futebol. Não se pode dizer, entretanto, que a voz das ruas não tenha produzido efeitos sobre o time.

Felipão é mestre na construção desse tipo de identidade. Em Portugal conseguiu mobilizar a população em torno da seleção. Pretendia fazer o mesmo por aqui, mas não chegaria perto da transformação lusitana.

Com a insatisfação popular, entre uma dose e outra de patriotismo, não perderá a oportunidade de inflar o desempenho do time com a revolta de um povo farto de seus políticos. Se a longa convivência gera desgaste na relação com os jogadores, nas competições de tiro curto o treinador se destaca pela sua maestria.

Embora se engane quando diga que a única forma de defender o Brasil é dentro de campo, Neymar foi categórico ao garantir que a partir do jogo contra o México estaria "inspirado por essa mobilização..." Foi o autor de um golaço e de uma extraordinária jogada para o gol de Jô.

Difícil imaginar como ficará o País depois de uma jornada tão importante. São necessárias profundas transformações na maneira de conduzir o futebol no Brasil. Não podemos perder esta oportunidade. No caso da seleção, haverá progressos. O mais provável é terminar o Grupo A em primeiro lugar e enfrentar o Uruguai na semifinal.

A partida contra a Itália deve ser a mais difícil, apesar da classificação antecipada de ambas. Contra os mexicanos houve oscilação tática e avanços. A evolução precisa ser coletiva, mas ninguém pode reclamar quando o solista do grupo sinaliza assumir o controle da orquestra.

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