Regata no Tietê homenageia São Paulo

Os motoristas que passavam na manhã de hoje pela Marginal Tietê na altura da Ponte das Bandeiras, na Zona Norte da Capital, lançavam olhares de curiosidade sobre a pequena multidão que se concentrava numa das margens do rio. Lá embaixo, cerca de 50 remadores percorriam as águas sujas do Tietê em pequenas embarcações, aplaudidos por um grupo de espectadores acomodados numa cabana. A cena, inusitada nos dias de hoje, mas comum décadas atrás, fez parte da "Regata Clube Esperia - 450 Remadas por São Paulo", homenagem do tradicional clube paulistano ao aniversário da Capital, que será comemorado oficialmente no próximo domingo. O evento foi promovido pelo Esperia com o apoio da Prefeitura de São Paulo e de patrocinadores privados. Ao longo de quase três horas, 14 embarcações realizaram sete provas num percurso de cerca de 500 metros que terminava justamente na Ponte das Bandeiras, ao lado da sede do clube. Apesar da participação de alguns remadores profissionais, as provas não tinham caráter competitivo. "O que queríamos era homenagear a cidade e o Tietê, que foi o lugar onde tudo começou", disse o organizador do evento, Ricardo Pessoa, referindo-se ao fato de que foi ali, às margens do rio, que foram realizadas algumas das mais importantes competições aquáticas da cidade, num período que teve início na década de 20 e se estendeu até o fim dos anos 50. Época que remadores veteranos, como Delnir Ramos, de 84 anos, lembram com saudades. "Naquele tempo, as famílias paulistanas vinham fazer piquenique na beira do rio para acompanhar as provas", lembrou ele, que praticou o esporte no Tietê entre 1943 e 1958. "Tenho muitas boas lembranças daquela época, e por isso estou muito emocionado em participar da regata hoje." Emocionada também estava Elisa de Paula, que, aos 79 anos, era a única mulher veterana no esporte presente na regata. "É duro ver o rio desse jeito. Ao mesmo tempo, estou feliz por poder voltar a remar aqui", disse ela, munida do kit composto de máscara, luvas cirúrgicas e óculos cedido pela organização do evento. Em terra, dez figurantes vestidos com roupas típicas da década de 20 posavam para fotos ao lado dos convidados. Nada que lembrasse, porém, as pessoas que iam ao Tietê acompanhar as provas do início do século passado, como contou uma espectadora de 82 anos, que se identificou apenas como Mercedes. "As roupas que a gente usava eram mais simples", disse ela, que tinha o hábito de assistir às competições nos anos 30. "O que eu mais gostava de ver era o iole à oito", contou, os olhos já cheios de lágrimas. Como o próprio nome diz, este é o tipo de embarcação que leva oito remadores - o maior número presente nos barcos usados hoje. Foi justamente numa embarcação como essa que o iatista Lars Grael, secretário da Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo, marcou sua participação na regata. Grael destacou a importância que a regata teve por tentar resgatar, mesmo que de forma simbólica, o glamour que o rio teve em outros tempos. "Quem sabe não poderemos, um dia, resgatar também a prática de esportes no rio?", apostava ele. Esperança que é compartilhada pela ex-remadora Elisa de Paula: "Até tenho rezado para que o rio volte a ser como antes", disse.

Agencia Estado,

18 de janeiro de 2004 | 19h43

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