Regime da Líbia faz uso político da seleção

Governo monta equipe apenas com jogadores da capital Trípoli, área simpática ao ditador [br]Muamar Kadafi

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

Muamar Kadafi abusou do futebol para humilhar adversários e continua usando a seleção nacional, em pleno conflito, para demonstrar que tem apoio popular. Hoje, o governo com sede em Trípoli está ameaçado por rebeldes da cidade de Benghazi. Se politicamente a guerra apenas se transformou em notícia nas últimas semanas, a realidade é que há décadas essa rivalidade já se demonstrava claramente nos campos.

Hoje, o time olímpico da Líbia se mudou para o Mali para disputar as eliminatórias para os Jogos de 2012, em Londres. Justamente por conta do avanço dos rebeldes de Benghazi, a seleção conta apenas com jogadores de Trípoli, fiéis ao regime.

Há uma semana, o primeiro amistoso realizado pela Líbia, contra Comoros, transformou-se em comício pró-governo. "O time inteiro está com Kadafi", garantiu o capitão da seleção, Tariq Ibrahim Al-Tayib. O time do ditador venceu por 3 a 0 e, a cada gol, a torcida mostrava imagens de Kadafi e gritava seu nome.

O jogo foi apenas um espelho de como o futebol tem sido usado por anos pelo regime. Temendo que o time de Benghazi surgisse como uma força mobilizadora, Kadafi "armou" o time de Trípoli para sempre vencer os rivais.

Manipulação. O filho de Kadafi, Saadi Al-Islam, se tornou sócio do Al Ahli, de Trípoli, há uma década e decidiu que o clube seria a vitrine do poder de seu pai. Ao mesmo tempo em que controlava o time, presidia a Federação Líbia de Futebol. Internamente, a meta era a de arrasar com o Al Ahli de Benghazi. Vendo a manipulação de resultados quando jogavam contra os de Trípoli, os jogadores de Benghazi chegaram a abandonar o campo em pelo menos duas ocasiões. Mas foram obrigados a voltar a jogar, por exigência da polícia de Kadafi.

Num jogo do time de Benghazi contra o de Al-Baydah, cidade da mãe de Kadafi, um pênalti duvidoso apitado contra a equipe da cidade dos rebeldes provocou mortes. Inconformados com a manipulação do resultado, os torcedores invadiram o campo e destruíram parte da sede da Federação de Futebol. A reação foi imediata: o clube acabou dissolvido, sua sede destruída e 50 pessoas foram presas.

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