Relações nebulosas entre árbitros e apostadores

O Campeonato Brasileiro de 2005 entrava em sua 28ª rodada quando um escândalo de arbitragem abalou a principal competição do futebol nacional. No dia 23 de setembro daquele ano, a denúncia de um esquema de armação de resultados levou à prisão de dois juízes e cinco apostadores. Onze partidas, suspeitas de terem sofrido manipulação no caso conhecido como Máfia do Apito, tiveram de ser remarcadas.Revelada em uma reportagem da revista Veja, a operação da Polícia Federal e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo) prendeu Edilson Pereira de Carvalho - na época, um dos árbitros de maior expressão no futebol do País. Com resultados arranjados pelo empresário Nagib Fayad, que bancava até R$ 400 mil por jogo em sites de aposta, Edilson lucrava de R$ 10 mil a R$ 15 mil para favorecer determinadas equipes. Outro árbitro, Paulo José Danelon, recebeu R$ 30 mil para interferir em três jogos do Campeonato Paulista. Só naquele ano, a quadrilha, que atuava em São Paulo e Piracicaba, movimentou cerca de R$ 3 milhões. Durante quase um ano, a Polícia Federal grampeou cerca de 20 mil horas de conversas telefônicas entre os envolvidos. Em um trecho das gravações, Edilson garantia a vitória do Vasco sobre o Figueirense, em São Januário, no Rio. "Pode jogar até os carros que você tem que amanhã eu saio de escolta do jogo do Figueirense", disse o árbitro a Fayad. Confirmado. O Vasco ganhou do time catarinense por 2 a 1. Denunciados pelos crimes de estelionato, induzimento à especulação, crime contra a economia (popular) e também falsificação ideológica, os acusados ficaram detidos por cinco dias até serem liberados pela Justiça.Ex-árbitro da Fifa, Edilson admitiu participação e foi expulso de todas as entidades de arbitragem do País e do exterior. No ano seguinte, ele lançou um livro sobre os bastidores do escândalo e passou a cobrar até R$ 3 mil para dar entrevistas. Hoje, quase quatro anos depois do caso, ainda tem seu nome gritado frequentemente em estádios do País quando uma torcida quer ofender o juiz.Na sequência do Brasileiro de 2005, após os 11 jogos terem sido disputados novamente, o Corinthians tomou a ponta do Internacional. O clube gaúcho teve de refazer uma partida, que teve resultado idêntico ao da anterior: derrota por 3 a 2 diante do Coritiba. O Corinthians, que perdera duas vezes , recuperou 4 pontos e levou o título.A remarcação dos jogos causou revolta na torcida e nos dirigentes do Internacional, que ameaçaram ir à Fifa para anular a ação. Com medo de perder a vaga na Libertadores do ano seguinte, porém, o clube gaúcho recuou e decidiu acatar a decisão de Luiz Zveiter, presidente do STJD na época.

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