Relendo os clássicos

Lembram os estimados leitores do título da coluna da semana passada, "Lendo os clássicos"? Lembram que eu citei uma frase de Italo Calvino - "Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer ?estou relendo? e nunca ?estou lendo?"? Lembram do paralelo futebolístico que fiz com o pensamento do grande mestre, ao intuir que clássicos são jogos que sempre estamos revendo? Pois é. Agora vem a pergunta dolorosa: lembram dos meus palpites? Pois é. Todos, absolutamente todos, errados. Assim sendo, diante de tão constrangedora derrocada como oráculo, resta-me batizar a coluna desta semana com o título de "Relendo os clássicos". Não é que eu vá mudar os meus palpites - até porque, ao menos no caso do Campeonato Paulista, os clássicos são disputados em jogos de ida e volta. Mas que cabe uma releitura, cabe. Ao cronista esportivo, escrevi eu, cabe a árdua tarefa de tentar ler o livro do jogo antes que suas palavras sejam escritas. Ao menos os mais atrevidos, ou inconsequentes, como eu, fazem isso. Bem que disse que a lógica é algo que nem sempre está presente num clássico. Mas não dá para fingir que os meus favoritos - Palmeiras, São Paulo, Vasco e Fluminense - não foram batidos de forma inapelável. O Palmeiras, que vinha de exibição primorosa diante do Sport, em Recife, não repetiu a pegada e a aplicação tática na Vila Belmiro. Da mesma forma, não conseguiu bisar em casa a apresentação frente ao mesmíssimo Sport. Ainda atribuo ao Verdão um discreto favoritismo, pois uma vitória simples basta para garantir a classificação. Mas o Santos, que era o Santos de Kléber Pereira, ao menos em clássicos, agora passou a ser o Santos de Kléber Pereira e Neymar. A velocidade e a habilidade da joia da Vila, combinadas com o poder de finalização de seu artilheiro, tornam o Peixe um adversário temível. Na outra semifinal, também para manter a coerência, ainda acho que o São Paulo tem ínfimo favoritismo. Mas aqui cabe uma ressalva: tudo vai depender de como os jogadores de Muricy reagirão diante do drama de Rogério Ceni, a coisa mais próxima do inferno astral que eu já vi. Se os são-paulinos se encherem de brios para, com uma atuação inesquecível, lavarem a alma do líder convalescente, a vitória será possível. Qualidade técnica e consistência o time possui. Mas se o grupo, em vez de comer a bola, ficar lamentando a ausência do capitão, o Corinthians poderá ficar com a vaga. Insisto num ponto: se continuar explorando as laterais, ponto fraco do tricolor, o Corinthians poderá construir boas oportunidades para o seu jogador decisivo, Ronaldo. Sem ele e André Santos inspirados, o Timão tem menos chances. Até porque, acho improvável que o São Paulo de Borges e Washington não consiga marcar pelo menos um gol no Morumbi. No Rio não teve jeito. Errei feio. As semifinais da Taça Rio foram disputadas em jogo único e Botafogo e Flamengo despacharam Vasco e Fluminense, sem cerimônia. Coisas do futebol: o Vasco mostrou mais vontade do que o Flu e foi goleado. Já o Fluminense, que teve uma atuação tristonha diante do Flamengo, merecia ter sido goleado, mas acabou perdendo pelo placar mínimo, graças a uma falha bisonha do irregular e espalhafatoso Fernando Henrique. Na final de domingo, o Botafogo voltará a jogar relaxado, pois, mesmo se perder, terá mais duas chances de bater os rubro-negros. Se o time de General Severiano explorar isso, como fez diante do Vasco, terá possibilidades de liquidar a fatura. Já se perder o jogo de domingo, as recordações de chororôs pretéritos podem se tornar fantasmagóricas.

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