Renê volta à Jamaica como novo ''''Messias''''

Técnico responsável pela única participação do país em Mundiais (1998) se preocupa com o fanatismo da torcida, que o trata como uma divindade

Bruno Lousada, RIO, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Uma década depois de conduzir a seleção de futebol da Jamaica a sua primeira e única participação em uma Copa do Mundo, o técnico Renê Simões está de volta à terra do reggae com outra missão complicada: classificar a equipe para o Mundial de 2010, na África do Sul. Para surpresa do próprio treinador, ele foi recebido na ilha caribenha, no início do mês, como um enviado divino. Tamanha é a euforia que o brasileiro ganhou apelido de "Messias".Diante de tanta badalação, escreveu uma carta ao povo jamaicano, publicada em um dos principais jornais do país. Nela pede, entre outras coisas, calma à torcida. "O clima é de muita excitação, uma loucura só. Isso me preocupa. É perigoso", declarou Renê, temendo que tal ambiente contagie seus jogadores. "Mal ando na rua e sou abraçado ou recebo um aperto de mão. E tanto os homens quanto as mulheres me dizem: ?we love you, coach (nós amamos você, treinador)? ". Em 1994, quando chegou a Kingston com o sonho de disputar a Copa de 1998, na França, Renê se assustou com a falta de estrutura. Para se ter uma noção, se recusou a entrar na sede da Federação Jamaicana de Futebol (FJF) e exigiu um escritório particular para trabalhar. Atualmente, a realidade é diferente. Ele tem uma sala reservada num prédio de quatro andares da FJF e enxerga a evolução do futebol local. "O campeonato melhorou, a exemplo dos clubes. Alguns times têm até estádio próprio e pequenos centros de treinamento". Além disso, mais de 30 jogadores atuam no exterior, o que agrega experiência para a seleção. Renê é mais do que um treinador na ilha caribenha. Ele participa da organização do futebol na Jamaica, escolhendo até os técnicos das categorias de base. "A responsabilidade é grande, mas não tenho medo de nada." A Copa de 2010 carrega um significado mais do que especial para parte da população de 3 milhões de habitantes, ainda influenciada pelo rastafari. Esse movimento com origens no século 17 prega que os negros devem voltar para a África, sua terra prometida, de onde foram arrancados para servir como escravos. "Acredito que o projeto deveria ser chamado de ?volta à terra-mãe 2010?", relatou o treinador, em sua carta, referindo-se à África. "O primeiro objetivo é diagnosticar a situação do futebol jamaicano. Depois, farei um plano com estratégias que nos levarão à terra-mãe."Renê diz ser movido por desafios. Após conduzir o Coritiba de volta à divisão de elite do Campeonato Brasileiro, em 2007, não pensou duas vezes ao receber o convite para reassumir o comando da seleção da Jamaica. Ouviu de várias pessoas que estava maluco e havia tomado a decisão errada. "Dizem que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas espero que agora caia. O povo é apaixonado por futebol", comentou, prometendo criar novamente a febre dos Reggae Boys.

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