Repórter do ''Estado'' é atacado por 9 homens

Centro de Johannesburgo, tarde de sábado. Em plena luz do dia, na saída do Carlton Center, um dos mais importantes edifícios comerciais da África do Sul, fui atacado por nove homens armados que me jogaram ao chão. Levaram documentos e dinheiro, mas me deixaram a vida. Desde então, me pergunto se esse país tem ou não condição de organizar uma Copa do Mundo. Dentro de 60 dias, estarão aqui as melhores seleções e os jogadores mais caros do mundo. Com eles, virão jornalistas e alguns milhares de torcedores. Baseado no fato de que tudo isso é inexorável, a resposta é sim, haverá uma Copa. Será a Copa da África, mas não será uma Copa qualquer.

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

Não haverá torcedores comemorando pelas ruas. Confraternização, só em bares dentro de shoppings ou em lobbies de hotel. Em jogos noturnos, preocupação em dobro. Não haverá aqui jantares varando a madrugada. A volta para casa não será uma caminhada feita de conversas amenas sobre futebol. Johannesburgo não é Berlim ou Paris - ressalva seja feita, também não é como outras cidades sul-africanas, bem menos violentas.

Para os brasileiros, que acham que tudo isso é uma bobagem porque já estão acostumados com a violência das grandes cidades, um alerta: abram os dois olhos. Separados pela distância de um oceano, é difícil ter a dimensão do que foi o apartheid. Nosso único parâmetro seria a escravidão, no período colonial, que terminou 122 anos atrás.

Em termos históricos, o fim do apartheid e a eleição de Nelson Mandela são eventos recentes. É impossível exigir que a África do Sul supere o passado em tão pouco tempo. Voltando à comparação, seria como se a princesa Isabel assinasse a Lei Áurea em 1991 e, três anos depois, o Brasil elegesse Zumbi dos Palmares como presidente. Mudança radical.

Clima pesado. O clima na África do Sul é pesado, o ressentimento está no ar. E nem é preciso ter tanta sensibilidade para perceber, basta olhar as estatísticas. Todos os dias são registrados 50 assassinatos, 100 estupros e 700 assaltos à mão armada - isso entre uma população quatro vezes menor do que a brasileira. Muitos sul-africanos começam a perder a paciência. Metade da população negra está desempregada. A euforia criada pela Copa do Mundo fez com que muitos acreditassem na miragem da redenção. Mas os empregos não vieram. O Mundial enriqueceu poucos. Ou, como me disse um sujeito na fila de um banco: "A Copa está chegando, mas e daí?"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.