Retomada de vida

Voltei a ser repórter no GP da Hungria. E foi uma experiência bem diferente daquela que vivi nos meus tempos de trabalhar lá nos boxes. Longe de querer supervalorizar o que era o trabalho dos repórteres dos velhos tempos, mas em vários aspectos ficou mais fácil. Prefiro começar elogiando o pessoal de hoje, sobre o qual a exigência do torcedor é bem maior. Não cabe mais aquele repórter paraquedista que aparecia em uma ou outra corrida para dar uma esticada na viagem provocada por um jogo de futebol. Isso era comum. Hoje, o cara tem que ser do ramo e estar atento diariamente a dezenas de sites de Brasil, França, Inglaterra. Até os espanhóis são confiáveis quando o assunto não é Alonso.Feita a defesa dos repórteres atuais, posso falar mais à vontade das facilidades que até me surpreenderam. Antes de tudo, a tecnologia. Impressionante a qualidade com que ouvia a transmissão do Galvão, incluindo tudo o que a coordenação nos pede durante a corrida. Só perdia momentaneamente o áudio quando tinha de me deslocar, por exemplo, correndo junto com os outros repórteres para falar com Alonso, que parou mais cedo. Mas correr em autódromo com 34 graus é coisa para os mais jovens. A grande invenção foi o tal do cercadinho, por onde passam todos os pilotos. Que coisa bem bolada. Quebra o nosso galho e o deles. Cada piloto, não importa a posição na corrida, desde que tenha chegado ao final, passa por este cercadinho acompanhado do assessor de imprensa da equipe, e basta fazer um sinal para que o assessor traga o piloto até você. Achei divertido. Falei até com quem não interessava para a história que eu iria contar. Tudo bem que não basta estar ali. É preciso conhecer bem o assunto para fazer perguntas que mereçam boas respostas. Mas, pelo menos, o piloto fica cara a cara com o repórter e sabe que é melhor não fugir de pergunta alguma para ele também se ver livre o quanto antes. Nos velhos tempos a gente escolhia com quem queria falar e se plantava diante do box. Se o cara demorasse para aparecer, perdia a chance de falar com os outros. Quantas vezes eu lamentei ter de fechar uma matéria, já em cima do horário do satélite, sem contar com o ponto de vista de alguém importante no enredo. O pessoal da imprensa escrita ainda trocava informações em um encontro do tipo "quem falou com quem". Mas na TV a gente precisa do próprio personagem dizendo isso ou aquilo. Às vezes até a expressão do entrevistado pode ser importante. Resumindo, meus amigos Mariana Becker, Tati Cunha, Carlos Gil, Felipe Motta, Ico Ramos, Livio Oricchio (que ainda pegou parte da fase anterior), com todo respeito, a vida de vocês ficou mais fácil. Por outro lado, o volume de material que vocês produzem também é maior. Gostei da experiência provocada pelo fato de a Mariana ter sido deslocada para onde estava o foco de nossa cobertura, o Hospital Militar de Budapeste. Nossa equipe, com Luiz Demetrio, Hachem, Negreiros e coordenação do Jaime Brito, permaneceu ali 16 horas por dia, de sábado até ontem. Eu voltei ao Brasil no meio da semana e viajei cheio de esperança saindo de uma conversa com o Felipe ainda dentro da UTI. Ele respondeu a minhas perguntas, riu de brincadeiras, reclamou com o médico e amigo Dino Altman de estar deitado há tanto tempo. Agora já está andando. Tudo questão de tempo. Nada melhor para definir a situação de Felipe do que a frase do João Pedro Paes Leme, que já esteve no front e hoje nos guia na retaguarda: "Um sujeito apaixonado pela velocidade, sem poder desafiar o tempo". Mas o tempo passa. E Felipe saberá desacelerar nesse trecho da vida para ter uma retomada plena.

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