Mike Blake/ Reuters
Mike Blake/ Reuters

Retorno ruim da MLB pode ser um alerta para a NFL

Após principais ligas dos Estados Unidos retomarem jogos, futebol americano voltará

Ken Belson, The New York Times

30 de julho de 2020 | 09h00

Chegou a hora, NFL. Agora que quase todas as principais ligas esportivas da América do Norte retomaram alguma forma de atividade, é a vez de a NFL ver se consegue navegar pela pandemia de coronavírus, em meio a todas as bandeiras vermelhas que surgem a cada guinada.

O alarme mais sonoro disparou na segunda-feira, quando a Major League Baseball (MLB), com menos de uma semana de nova temporada, foi obrigada a adiar vários jogos por causa de um surto entre os Miami Marlins. Os desdobramentos continuaram na terça-feira, quando os jogadores do Washington Nationals votaram contra a viagem a Miami para jogar neste fim de semana, e a liga adiou todos os jogos dos Marlins até domingo. Os Marlins agora têm 17 casos positivos confirmados, incluindo 15 atletas, dentro de sua delegação.

As infecções dos Marlins e a subsequente mudança na agenda da MLB foram rápidas e assustadoras, lembrando aquilo que Anthony Fauci, o principal médico do país no campo das doenças infecciosas, disse ao New York Times em abril: “é o vírus que vai decidir com que rapidez voltaremos à normalidade”.

Como a temporada da NFL terminou pouco antes da pandemia, a liga conseguiu manter o calendário de entressafra, ainda que praticamente só online. Durante meses, os proprietários de equipes e o sindicato dos jogadores aprovaram planos para reduzir o risco de infecções, reconfigurando vestiários, reduzindo as programações de viagens, eliminando os jogos da pré-temporada e realizando testes com todos os funcionários, entre outras coisas.

Mas, ao contrário da NBA, da WNBA, da Major League Soccer e de outras ligas que criaram comunidades fechadas para isolar seus jogadores e funcionários, a NFL seguiu o caminho da Major League Baseball e do PGA Tour e optou por deixar jogadores e outros funcionários voltarem para suas casas depois dos jogos, aumentando consideravelmente o risco de exposição. Agora, os jogadores da NFL estão voltando aos treinos de olhos atentos à incerteza que envolve a MLB e o resto do país, à medida que os casos de vírus explodem em várias regiões.

“Não estou confiante em todo o sistema porque o vírus é muito contagioso”, Austin Ekeler, jogador do Los Angeles Chargers, disse à TMZ Sports. “Tem uma razão pela qual estamos passando por todos esses fechamentos e coisas desse tipo. Na verdade, não fizemos nenhum progresso no que diz respeito a conter essa coisa”.

Então, agora, a liga e a Associação de Jogadores da NFL estão apostando na testagem e em um código de honra para manter a temporada em andamento. No domingo, o sindicato enviou aos jogadores um memorando lembrando que as equipes podem penalizar os jogadores que forem pegos em boates, bares, festas em casa e outras reuniões com mais de 15 pessoas. Mas vamos esquecer o fato de que o esporte em si exige contato corpo a corpo e de que a liga está apenas recomendando, não exigindo, que os jogadores usem máscara.

“É só o começo”, disse Scott Braunstein, diretor médico da Sollis Health-LA, que foi médico-assistente dos Los Angeles Rams por quatro temporadas. “Se eles continuarem sem exigir máscaras e se o protocolo de teste não mudar drasticamente, o vírus vai se espalhar feito um incêndio nas equipes”.

Talvez seja tarde demais para a NFL prestar atenção a muitas das lições que a MLB está aprendendo. Allen Sills, diretor médico da NFL, disse a repórteres na segunda-feira que não há planos para uma comunidade fechada como a que a NBA construiu. A liga, disse ele, dependerá de uma “bolha virtual do futebol americano”. Na segunda-feira, em uma carta aos torcedores, o comissário Roger Goodell disse que o vírus apresentará “um grande desafio” nesta temporada e que “serão necessários ajustes para reduzir o risco a todos os envolvidos”.

O comissário disse que consultará o comitê de competição da liga para determinar quais limites devem ser estabelecidos para barrar algum time que venha a ser atingido por um surto de infecções, cancelar ou adiar jogos.

Uma lista crescente de jogadores optou por ficar de fora da temporada, entre eles Laurent Duvernay-Tardif, guard do Kansas City, Maurice Canady, quarterback do Dallas e vários jogadores do New England, como o linebacker Dont’a Hightower. O wide receiver do Philadelphia Eagles Marquise Goodwin disse no Twitter que optou por sair desta temporada porque não quer aumentar o risco de sua esposa perder outro filho depois de eles já terem perdido três devido a complicações no parto de sua filha, em fevereiro. “Não vou correr o risco de sentir mais uma perda por causa da minha decisão egoísta”.

Pelos termos do acordo firmado entre a liga e o sindicato na semana passada, os jogadores que optarem por não jogar receberão uma quantia de US $ 150 mil como adiantamento do salário que a teriam direito nesta temporada.

Caleb Brantley, defensive tackle do Washington, é um dos jogadores que fizeram essa opção, porque tem uma das 15 condições médicas que a liga considera “de alto risco”. Ele e outros que se encontrarem na mesma situação irão receber um pagamento de US $ 350 mil, mas isto não será tratado como adiantamento salarial.

Com milhares de jogadores cruzando o país para se apresentarem nos campos de treinamento, a lista de testes positivos deve crescer nesta semana. E, enquanto as infecções ricocheteiam na MLB, é provável que mais jogadores da NFL decidam ficar de fora da temporada.

Vai ser um grande teste para a NFL. Jogadores e treinadores respeitam a ética do “próximo homem”: quando um jogador cai por causa de uma entorse no tornozelo, um rompimento dos ligamentos do joelho ou uma concussão, o próximo homem deve estar pronto para tomar o seu lugar. Estamos prestes a descobrir o que acontece quando a lesão não é uma contusão ou um osso quebrado, mas um vírus invisível.

“Pelo menos vai começar”, disse Jason Kelce, center dos Eagles. “Como vai ser? Bom, depende da nossa capacidade de impedir que o vírus contamine todas as nossas instalações, como as outras equipes”. / Tradução de Renato Prelorentzou 

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