Retrospectiva do futuro

Prepare-se, está começando a semana com o maior índice de notícias velhas do ano. No ar, a retrospectiva 2010, um tsunami de chatices sobre os pontos positivos e os negativos da temporada, obviamente marcada pela Copa do Mundo da África do Sul e por mais uma derrota da seleção brasileira, que não vai sentir saudade do jeito Dunga de comandar. A boa lembrança fica por conta da maior conquista do futebol espanhol e seu apreço pela bola.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Como deixar de citar o fracasso do Internacional diante do Mazembe, da República Democrática do Congo, no torneio de clubes da Fifa? Mas e a vitória dos gaúchos na Libertadores? Essa sim é relevante.

O ano foi da Inter de Milão, uma campeã europeia e mundial em crise, dirigida até junho por José Mourinho, o treinador mais bem pago do planeta, agora com a missão de fazer do Madrid um autêntico campeão real. E foi também do Barcelona pelo futebol de excelência, pelo estilo. Notícia boa.

Na cena doméstica, o título do Fluminense, o quarto de Muricy Ramalho nos últimos cinco anos, ainda está fermentando, mas não seria justo com a história esquecer a retomada do espetáculo pelo Santos no primeiro semestre, com suas virtudes e volúpia. Os santistas iniciam 2011 esperançosos, nós também.

O sufoco do Atlético Mineiro para driblar a Segunda Divisão também merece ser mencionado, assim como a luta pelo poder no Palmeiras. Há muita gente no demolido Palestra Itália se divertindo com o exibicionismo da autoridade. O jogo do campo é um detalhe quando comparado às batalhas políticas, certamente mais prazerosas que o futebol.

Tem também o centenário sem título do Corinthians e a promessa de um estádio de verdade para o Mundial de 2014. É o fim das maquetes? Mal no Brasileiro e sem vaga na Libertadores, para tentar voltar à competição sul-americana o São Paulo terá de embarcar pela ala doméstica das Linhas Aéreas Copa do Brasil. Não deixa de ser uma novidade digna de retrospectiva.

E o reconhecimento dos títulos da Taça Brasil e do Robertão pela CBF? São tantas emoções que o Palmeiras agora possui dois Campeonatos Brasileiros no mesmo ano, adquiridos em 1967. Surge a taça com estepe. Se acontecer uma tragédia como a que derreteu a Jules Rimet, roubada da entidade na gestão de Giulite Coutinho...

Com Ricardo Teixeira, a confederação inventa, inova, é uma incubadora de péssimas ideias. Esse trabalho árduo e criativo de verdadeiros abnegados, de gente que dá o sangue pelo esporte deixando a vida pessoal em segundo plano, nos faz ter esperança.

Se a transformação da Taça Brasil e do Robertão em Brasileiros é assim tão óbvia, porque o chefe dos cartolas esperou 21 anos para carimbá-los? Certo dia recebeu um dossiê e, sem colocá-lo em discussão, perguntou: onde eu assino? Notícia comum.

A Copa do Mundo de 2014 não é obstáculo para quem desejar mergulhar nos fatos mais relevantes de 2010. Como ela está distante e a gente ainda não faz por aqui retrospectiva do futuro, simplesmente não há o que relatar, apesar de uma demolição aqui, uma terraplenagem ali. Notícia perigosa.

Vai funcionar. Tudo vai funcionar no Mundial e nos Jogos Olímpicos, apesar das reclamações. É triste ouvir Ronaldo Nazário reclamar dos gramados dos estádios brasileiros, é triste saber de Cesar Cielo que o País não conta com piscinas adequadas para treinamento e competição. Deveriam ser questões superadas, mas as promessas continuam vagando. E os orçamentos nas alturas. Notícia velha.

O esporte brasileiro está parecendo aeroporto em véspera de feriado, aquela fila interminável de abnegados, palavra que determinado setor da cartolagem nacional atribuiu novo sentido.

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