Ricardo Bufolin/CBG
Apoio da Caixa foi fundamental para os bons resultados da ginástica Ricardo Bufolin/CBG

Risco de corte de patrocínio de estatais deixa esporte temeroso

Governo Bolsonaro deve rever investimentos esportivos e confederações ficam apreensivas

Ciro Campos e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2019 | 04h30

O esporte nacional vive uma grande apreensão com a possibilidade de corte em patrocínios estatais nos próximos anos. Muitas confederações passam por dificuldades financeiras e a situação tende a piorar sem o dinheiro da Caixa, BNDES, Correios e Infraero. Apenas Petrobrás e Banco do Brasil avisaram que pretendem manter o nível de investimento de 2018 para este ano.

As medidas do governo de Jair Bolsonaro ainda são uma incógnita e a própria Caixa solicitou a seus parceiros que façam relatórios sobre a importância do patrocínio e o retorno institucional que eles representam. Os cerca de R$ 217 milhões investidos em 2018 devem ser reduzidos este ano, com cortes principalmente no futebol.

Nos próximos dias haverá uma reunião com o comando da Caixa para mostrar o alcance desses patrocínios. Para algumas modalidades, como atletismo, ginástica e basquete, além do esporte paralímpico, é inegável o quanto esse dinheiro estatal ajudou na formação de atletas e conquista de bons resultados internacionais.

"A Caixa é um parceiro histórico do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) e tem sido fundamental para o desenvolvimento do esporte paralímpico ao longo desses 16 anos. O planejamento que executamos atualmente é de quatro anos e vai até os Jogos de Tóquio. Sem o patrocínio, este planejamento fica inviabilizado, o que prejudicaria todo o segmento de esporte para pessoa com deficiência do país", explica Mizael Conrado, presidente do CPB.

O contrato da Caixa com o CPB, de 2017 até 2020, implica o investimento de R$ 95 milhões. "A Caixa sempre foi uma grande parceira e honrou integralmente os compromissos, o que nos permitiu levar o Brasil a outro patamar no cenário internacional, ao sair da 24.ª colocação em Sydney-2000 para o 8.º lugar no Rio-2016. Temos plena confiança de que seguiremos juntos por muito tempo, numa relação cuja sinergia gerou uma das maiores parcerias do esporte paralímpico mundial."

Em nota, a Caixa informou que os investimentos no esporte para este ano estão sob análise. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que em 2018 desembolsou R$ 2.382.441,00 para projetos de canoagem, explicou que os valores para 2019 ainda serão alinhados com a nova administração.

A Confederação Brasileira de Canoagem, que gerencia os valores que são utilizados para os atletas de alto rendimento da modalidade, espera que a situação não piore. "A apreensão é real, porém, estamos trabalhando e adequando nossos projetos à realidade existente", comenta João Tomasini Schwertner, presidente da entidade.

"O BNDES é o nosso principal patrocinador, vamos reforçar os laços que já temos e buscar manter a parceria que foi fundamental para o desenvolvimento da canoagem brasileira. Precisamos de parceiros e hoje o BNDES é o nosso foco. Mas, para mantermos nossas ações, precisamos de patrocinadores. Sempre temos de buscar parcerias", continua.

No ano passado, os Correios patrocinaram seis confederações, mas apenas duas estão com contratos vigentes. Com isso, as entidades que cuidam dos esportes aquáticos, tênis, rúgbi e handebol podem perder receita, pois os Correios estão analisando ainda as possibilidades.

"Nós já fomos atingidos pela não renovação do contrato de patrocínio com o Banco do Brasil em 2018. Com relação aos Correios teremos o prazo do contrato encerrado em janeiro e teremos de discutir a renovação", diz Ricardo Souza, presidente da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb).

Em 2013, o Brasil foi campeão mundial de handebol no feminino e no momento a seleção masculina está disputando o Mundial. Mas a falta de recursos atrapalhou a preparação. "Toda perda de recurso impacta negativamente, pois os investimentos deixam de ser realizados, impossibilitando a implementação de ações já planejadas, e em especial o trabalho de base pode ser prejudicado", avisa Souza.

O contrato da Confederação Brasileira de Rugby com os Correios vence no dia 15 de fevereiro. A intenção é renovar, mas, caso perca o patrocínio, a entidade vai se adequar. "Deveremos ajustar nosso orçamento para continuar apoiando nossas prioridades estratégicas da forma mais efetiva", afirma Agustin Danza, CEO da CBRu.

A Infraero explicou que não há previsão de novos patrocínios. Atualmente, apoia a Liga Nacional de Basquete (LNB) e o recurso para esta temporada é de R$ 600 mil. "A LNB não tem qualquer sinalização de interrupção de seus projetos com a Infraero. A parceria é motivo de muito orgulho e nos permite contribuir com a divulgação dos bons resultados da gestão transformadora da empresa nos últimos anos", diz a liga.

Entre as estatais, a Petrobrás indicou que vai investir cerca de R$ 80 milhões em 2019, quase o mesmo patamar do ano passado, e o Banco do Brasil pretende manter o valor de 2018, que foi de R$ 55,7 milhões. "A expectativa do BB é a de manter o patamar dos investimentos, cuja plataforma é pautada por critérios técnicos de valorização da imagem da instituição, reforço de sua estratégia negocial e aproximação dos clientes", avisa o banco.

 

 

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Clubes que eram patrocinados pela Caixa já procuram alternativa

Equipes receberam no ano passado quase R$ 130 milhões e agora vão em busca de novos recursos

Ciro Campos, Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2019 | 04h30

Os clubes do futebol brasileiro já consideram a Caixa como um ex-patrocinador e garantem que estão em busca de alternativas de anunciantes substitutos. O banco estatal patrocinou 25 equipes na temporada passada e injetou nelas R$ 127,8 milhões, o equivalente a cerca de 17,2% do total de R$ 740 milhões investidos em patrocínio no futebol nacional.

O banco explica que todos os patrocínios para 2019 estão em análise, mas os clubes demonstram não ter expectativa pela renovação. Um deles é o Santos, destinatário em 2018 de R$ 10 milhões. "Seguimos no trabalho comercial de prospecção de novos patrocinadores para o clube, não apenas para a categoria master, mas para outras opções", disse a diretoria em nota. O time da Vila Belmiro afirmou que, apesar da necessidade de compensar a perda, considera o mercado propício para encontrar um novo anunciante.

O presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, disse ter sido surpreendido com a chegada de um comunicado da Caixa com o aviso para não estampar mais a marca no uniforme. O clube campeão da Série B no ano passado havia planejado o orçamento de 2019 com a verba do banco incluída nas contas.

"Eu já trabalho com a possibilidade de outro patrocinador. Acreditávamos na renovação do acordo. Inclusive nosso Conselho Deliberativo aprovou a previsão orçamentária com o dinheiro do patrocínio incluído. A decisão da Caixa vai quebrar nosso planejamento", afirmou.

O Fortaleza recebeu no ano passado R$ 2,4 milhões pelo patrocínio e mais R$ 800 mil pelo título da Série B. A mesma quantia de premiação foi enviada pela Caixa ao Cruzeiro, pela Copa do Brasil, e ao Athletico, campeão da Copa Sul-Americana.

Assim como o Santos, o Atlético-MG recebeu R$ 10 milhões do banco na última temporada. A diretoria explicou que já esperava a perda desta receita para 2019. "O clube já vinha trabalhando com a possibilidade da saída da Caixa. Estamos buscando parceiros que possam assumir o patrocínio master", explicou em nota.

A verba do banco no ano passado também se destinou a dez competições regionais. O valor de R$ 10,9 milhões foi repassado para torneios como Copa Verde, Copa do Nordeste, Campeonato Rondoniense, Sergipano e Piauiense.

Duas equipes vão continuar a ter o patrocínio pelos próximos meses, por ainda terem contrato em vigor. O Botafogo poderá exibir a marca até fevereiro, por um acordo de R$ 10 milhões. Já o Sport terá a marca na camisa até maio. O vínculo entre as partes completará seis meses de duração. O investimento é de R$ 2,8 milhões. 

 

 

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