H. Wanab/JBFA
H. Wanab/JBFA

Roberto Sasaki, o brasileiro que tenta impedir o ouro paralímpico do Brasil no futebol de 5

Naturalizado japonês, o paulista de 43 anos defende a seleção nipônica desde 2014, adversário do Brasil neste domingo, às 23h30

Caio Possati, Especial para o Estadão

29 de agosto de 2021 | 17h36

De todos os jogadores brasileiros do futebol de 5 que estiverem em quadra na arena Aomi Urban Sports Park, para a partida deste domingo entre Brasil x Japão, às 23h (de Brasília), certamente um vai torcer pela vitória dos donos da casa. Naturalizado japonês, o paulista Roberto Sasaki, de 43 anos, terá a missão de neutralizar os atacantes da seleção brasileira, que estreou com vitória sobre a China por 3 a 0 na Paralimpíada de Tóquio. Ele é o fixo da seleção japonesa por onde joga desde 2014.

Sasaki mora no Japão desde os 17 anos. Foi no país asiático, em 2006, que sofreu o acidente de carro que o deixou cego. Ao acordar do coma induzido de 16 dias, descobriu pela irmã que nunca mais voltaria a enxergar. “Eu perguntei se havia algum tipo de cirurgia, algo que pudesse ser feito. Ela respondeu: 'Não, você não entendeu, você já não tem mais os dois olhos'.”, lembra Sasaki, que possui duas próteses no lugar dos globos oculares hoje.

Antes de começar a praticar o futebol de 5, Roberto precisou reaprender atividades básicas para se adaptar à nova condição. Para conseguir andar, ler e escrever em Braille foram necessários cinco meses de trabalho em uma entidade do governo japonês especializada na reintegração do deficiente social na sociedade. No esporte, começou no vôlei e no tênis de mesa, mas foi com as chuteiras que ele se sentiu mais à vontade. 

Quando cursava a faculdade de Ciências da Computação, Sasaki foi convidado por um treinador a jogar pelo Avanzaré, equipe amadora de futebol para cegos da cidade de Tsukuba, província de Ibaraki. Percebendo que Roberto levava jeito, o técnico da seleção japonesa convidou o brasileiro para, literalmente, defender a seleção nipônica. “O treinador chegou para mim e disse: ‘Você defende legal. Você não quer fazer parte da defesa da seleção?’”, conta Sasaki.

Além de defender a seleção asiática, Roberto também veste a camisa da Apadevi, time de cegos de Campina Grande-PB. Pelo equipe paraibana, ele disputa os torneios regionais e nacionais organizados pela CBDV (Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais). Sasaki chega a vir para o Brasil semanas antes dos torneios para treinar junto com os companheiros. Um deles é Matheus da Costa, que também joga pela Apadevi e que está em Tóquio com a seleção brasileira.

Diferente do Brasil, tetracampeão paralímpico, o futebol de 5 ainda não tem tradição no Japão, e os Jogos de Tóquio são os primeiros que a seleção japonesa participa. O time é amador, e os jogadores não recebem salário, o que os impede de viver exclusivamente da prática esportiva.  

Porém, a equipe demonstra sinais de evolução. No Grand Prix disputado em junho, que serviu como evento teste para a Paralimpíada, o Japão ficou em segundo lugar depois de perder a final para a Argentina por 2 a 0. Roberto chegou a receber um prêmio de destaque pelas boas atuações no torneio. A estreia em Paralimpíada também foi promissora: vitória sobre a França por 4 a 0. 

Contra os brasileiros, os japoneses vão defender a liderança do grupo A. "Vai ser um jogo pegado, vou ter de correr bastante. É sempre passe para cá, para lá. Tem muito jogador bom", reconhece o fixo do time asiático. "Para mim, jogar contra o Brasil é uma satisfação muito grande, sempre aprendo muita coisa. Independentemente do resultado, fora de campo a amizade continua.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.