Romário

Durante a vida vi muitos jogadores aproveitarem de seus prestígios para entrar para a política. Podia até tentar enumerá-los, mas não vou fazer isso por pura preguiça. O fato é que não vale muito a pena. A maioria desses atletas, depois de eleitos, desaparecem na obscuridade do dia a dia da política e não se ouve falar mais deles durante todo o período em que deveriam estar atuando. Outros, casos piores ainda, aparecem porque envolvidos em escândalos dos mais variados matizes, manchando até carreiras brilhantes e currículos futebolísticos impecáveis. Alguns, os mais dignos, se arrependem amargamente de terem começado a nova carreira e se afastam na primeira oportunidade para nunca mais voltar.

Ugo Giogertti, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h08

A esmagadora maioria não é reeleita e volta para sua vida comum. Pois bem, foi com muitas reservas que recebi a notícia de que Romário tinha sido eleito deputado federal. Pensei, ao mesmo tempo, no enorme contingente de jogadores que, como políticos, não deixaram saudade e também no retrospecto pessoal do próprio Romário no futebol.

Apesar de sua enorme técnica, seu futebol maravilhoso que deixou saudade, não era uma figura exemplar. Sem se envolver propriamente em escândalos ou negócios duvidosos seu problema era a indisciplina de seu estilo de vida. Preguiçoso, gozador, irreverente, sarcástico, tinha tudo de um grande boêmio, e pouco de um bom político.

Talvez seja ele, no entanto, a contrariar tudo o que penso de jogadores envolvidos com política. Desde que apareceu no Congresso tem adotado posições que, pela coerência, me parecem uma verdadeira novidade. Como grande atacante que era, sai para o ataque sem meias palavras e com determinação impressionante.

Primeiro foi o antigo presidente da CBF seu alvo. Atacou-o de rijo, mas como estava em companhia de muita gente, sua campanha não repercutiu tanto. Mas foi notada.

Agora sai para o ataque ainda mais agressivo contra o atual presidente, José Maria Marin. Tem chamado insistentemente a atenção do plenário para alguns feitos da carreira de Marin durante o regime militar e pedido atenção para eles, principalmente no que refere a discursos comprometedores que teria proferido em São Paulo, coincidentes com a prisão e morte do jornalista Vladimir Herzog.

Esses fatos não são uma descoberta de Romário e vários jornalistas estão se ocupando disso, mas Romário os está levando para o centro nevrálgico da política nacional, onde não podem ser mais ignorados. Recentemente eu o vi na TV, terno e gravata, cabeleira grisalha, propondo solenemente que a Câmara investigue José Maria Marin. Insurgir-se contra os poderosos, não compactuar com eles, é algo incomum na política brasileira. Mais incomum ainda quando parte dessa categoria de jogadores de futebol que tem feito tão pouco quando recebe os votos da população. Algo me diz que Romário vai quebrar essa tradição.

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