Ronaldinho Gaúcho e Atlético se reinventam

Após campanha histórica no primeiro turno, Galo tem vários trunfos para conquistar título nacional que não leva desde 1971

GONÇALO JÚNIOR, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h06

Quando o técnico Cuca apresentou para os medalhões do Atlético Mineiro o plano de trazer Ronaldinho Gaúcho, o volante Leandro Donizete foi curto e grosso: "Pode trazer que eu corro por ele". Ninguém disse um "a" contra a negociação, mas todos imaginavam que o craque só ia jogar se a bola chegasse - redondinha - no seu pé eleito duas vezes o melhor do mundo.

Contrariando até seus próprios companheiros, Ronaldinho está correndo. Mais precisamente, 9000 metros por jogo, como mostra um estudo dos preparadores físicos do clube. "Esse número varia muito de acordo com a posição, o tipo de jogador. É apenas um indicador para a programação de treinamentos", desconversa o preparador físico Carlinhos Neves, do Atlético Mineiro e da seleção brasileira.

Para um jogador de 32 anos, ele está bem na foto: uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que um jogador corre, em média, entre 9 e 11 quilômetros por jogo.

Parece esquisito medir Ronaldinho Gaúcho com a mesma régua dos competidores de atletismo, mas não é. Para ele, só falta correr. "Ronaldo é o cara que pensa a jogada", conceitua Cuca.

O talento e a correria de Ronaldinho foram importantes para o título do Atlético Mineiro no primeiro turno, que não tem nada de simbólico. O Atlético é o melhor campeão do primeiro turno da história dos Brasileiros de pontos corridos, com 82,3%. Mesmo se perder os dois jogos que faltam, será o recordista. Na comparação com os campeonatos de 24 e 22 clubes, o time só perde em pontuação para o Cruzeiro, campeão de 2003.

Toda essa numeralha significa uma coisa só: o Atlético tem tudo para acabar com a hegemonia Rio-SP no futebol brasileiro, que já dura nove anos. Mais do que isso: encerrar um jejum de 41 anos sem vencer o Brasileiro - o único título foi em 1971.

Só dois sentimentos são mais intensos que o entusiasmo dos atleticanos: a humildade, que aparece três vezes a cada quatro palavras, e a tensão pelo clássico de hoje contra o Cruzeiro. É o primeiro dérbi disputado na capital mineira em dois anos - com a reforma do Mineirão, os jogos foram disputados na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas. A cidade está em transe. "Sempre chego com confiança nos clássicos. Fiz gol em quase todos", revela Ronaldinho Gaúcho, referindo-se a alguns dos dérbis mais importantes do mundo como Real x Barça e Milan x Inter.

Outra pessoa. O Ronaldinho que está no Atlético não é o mesmo que saiu do Flamengo em briga judicial. O atleta deixou o clube carioca no dia 31 de maio, após entrar com processo trabalhista em que reclama R$ 40.177.714,00 entre salários atrasados, FGTS, INSS e verba rescisória. O Flamengo contra-atacou provando que o jogador passou a noite com uma mulher no hotel de Londrina, onde a delegação estava hospedada. Ronaldinho quis negar o que até as câmeras de TV deduraram.

Os 9000 metros que Ronaldinho faz por jogo são fichinha perto da correria que ele dá atrás de sua redenção. Embora tenha feito 28 gols e conquistado o título carioca, episódios como esse reforçaram a fama de baladeiro e de atleta em final de carreira.

Por isso, assinou um contrato de risco com o Atlético, de seis meses. Aceitou receber R$ 300 mil, valor confirmado por fontes oficiais e quatro vezes menor do que ganhava no Flamengo. Amigos dizem que ele trabalha com duas possibilidades: voltar à seleção ou ao futebol internacional, um Catar ou China da vida. Nas duas pontas, quer encerrar a carreira por cima e, assim, é o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos. Está fininho.

"Ele não tem problemas para manter o peso e tem sido bastante disciplinado, seguindo as minhas recomendações", elogia a nutricionista Patrícia Teixeira, que realiza um trabalho individualizado no elenco e costuma até visitar a casa dos jogadores.

Festa na mansão. Não, Ronaldinho não virou evangélico. Ele treina muito, mas as baladas continuam. O craque alugou uma mansão no bairro de Lagoa Santa, distante cerca de 30 quilômetros de BH. Ele mora em um condomínio de luxo que se chama Amendoeira onde a casa mais simples, aquela no canto da rua, vale R$ 1,1 milhão. Sua residência fica em um local de difícil acesso, remoto mesmo, protegido por seguranças de butuca ligada 24 horas por dia. Como na época do Rio, as festas não têm dia ou hora. Só não são realizadas nas vésperas dos jogos (várias fontes ouvidas pelo Estado afirmaram que a concentração de dois dias é uma das razões do sucesso do grupo).

O cardápio segue a tradição carioca: funk, bebida, comida e mulheres à vontade, mais precisamente cinco para cada homem. As acompanhantes vêm de Santa Catarina direto para a mansão e cobram em média R$ 3 mil pela "participação especial".

No dia 12 de agosto, após mais um balada sem fim, Ronaldinho se atrasou para a concentração. Deveria chegar às 23h, mas o motorista encostou a BMW preta do craque 1h30 no CT. Os porteiros abriram o bico e, no sábado de manhã, o presidente Alexandre Kalil chegou bufando. Começou cobrando Réver, Danilinho e Marcos Rocha por uma confusão em uma exposição de gado.

A bronca chegou em Gaúcho, que não ficou calado e insinuou que o Atlético só ganhou destaque após a sua chegada. Foi afastado do jogo contra o Vasco. A turma do "deixa disso" contornou a situação horas depois. O bafafá foi tão grande que o clube sequer divulgou a lista dos relacionados para o confronto. Mordido, Ronaldinho arrebentou na partida e o Galo venceu. Mas foi a primeira rachadura na parede alvinegra.

O time, obviamente, é não é só Ronaldinho Gaúcho. Um dos segredos do sucesso é a continuidade. Apesar de conviver com a sombra do rebaixamento em 2011, Cuca não foi demitido. Nem quando a equipe perdeu para o Cruzeiro por 6 a 1, no jogo que poderia decretar o rebaixamento da Raposa para a Série B, no final do ano passado. Ao romper o ciclo vicioso da demissão de treinadores, Kalil deixou que Cuca fizesse o que saber fazer de melhor: montar um time.

Só craques. Hoje, o treinador é o líder de uma comissão técnica de primeira, que inclui além de Patrícia Teixeira e Carlinhos Neves, o preparador de goleiros da seleção brasileira, Chiquinho, e médico da seleção Rodrigo Lasmar. Tudo isso em uma infraestrutura quase europeia: a Cidade do Galo é o melhor CT do Brasil de acordo com a pesquisa da Universidade Federal de Viçosa (MG). "Esse é o melhor momento do clube nas últimas décadas", diz Eduardo Maluf, diretor de futebol do Atlético Mineiro.

Vale uma referência ao artilheiro Dadá Maravilha, autor do gol que garantiu o único título brasileiro do Galo, em 1971: parece que o time, depois de 41 anos, encontrou a "solucionática" para toda sua problemática.

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