Ronaldinho, Kaká e Pato

Boleiros

O Estadao de S.Paulo

31 de julho de 2008 | 00h00

E Ronaldinho Gaúcho foi para o Milan. Gostei, parece promissor. Principalmente pelo fato de, possivelmente, jogar ao lado de Kaká e Pato. Todos falam da volta de seu sorriso. Nunca achei que estivesse fazendo falta a visão de seus dentes peculiares. Andou sumido o seu futebol estelar. Os motivos? Insondáveis. Qualquer análise tende a ser mera especulação. As evidências de sua má forma física revelam uma falta de interesse. E não se faz nada de bom nesse mundo sem interesse. Nem mesmo o seu talento incontestável poderia não sofrer com a toxicidade que representa a perda da motivação. Jogar futebol parece ser uma profissão que depende muito da capacidade de concentração e foco. E boas horas de sono bem dormido.O que mais me excita nessa sua transferência é imaginar que, tendo os colegas de equipe acima mencionados, pela quantidade de treinos e seqüência de jogos que certamente farão juntos, uma hora esse trio vai afiar o repertório de seu amplo vocabulário. E quem sabe, isso não tenha reflexo na nossa desanimada seleção. Anda carecendo de brilho o futebol que vem jogando o escrete canarinho. E isso já ocorre há tempos. Falta de vibração, falta de originalidade e de genialidade no pensamento e na execução das jogadas? falta de linguagem por falta de tempo para os treinos. A falta de tempo para uma boa preparação é a queixa mais comum que ouvimos de todos os técnicos. E isso é inegável. O calendário apertado acaba prejudicando o rendimento. Os jogadores convocados para a seleção principal estão espalhados pelo mundo e sempre se reúnem no aeroporto, fazem um dois toques de reconhecimento do gramado e entram em campo. Não quero entrar no mérito da filosofia de trabalho do técnico Dunga. Esse assunto é controverso. Nesse momento ele e seus comandados se preparam para disputar as Olimpíadas. Em breve veremos o resultado de seus ensaios.Como acredito que os três craques certamente figurarão nas próximas convocações, imagino que o fato de passarem a jogar juntos a partir de setembro no clube de Milão, será muito proveitoso. Não há nada melhor do que a continuidade que a convivência traz em sua esteira. Intimidade é fundamental para a criação de uma linguagem. E qualquer trabalho em equipe melhora com o passar do tempo. Obviamente tenho um olhar otimista que procura minimizar os efeitos deletérios dos egos inflamados pelo excesso de fama e dinheiro. Ainda acredito na capacidade do ser humano de buscar o melhor.Não conheço pessoalmente nenhum dos três jogadores que estou citando. Apenas levo em conta a impressão que me passam os seus respectivos olhares. Prefiro guardar a inocência e a ingenuidade de crer na nobreza das relações fraternas. E imaginar que os três brasileiros descobrirão o prazer de reunir seus grandes talentos. Jogo após jogo, treino após treino, a novidade de uma descoberta, a invenção de uma solução inesperada. Todos os grandes times que vi jogar foram talhados com a ferramenta da paciência e do tempo. E sob o comando de um técnico sensível e inteligente. Dunga já se indispôs mais de uma vez com os dois mais velhos. Dentre suas qualidades não parece figurar a habilidade para contornar diferença entre pontos de vistas. Mas agora ele está lá na China com o desafio de trazer a medalha inédita. E tendo que contar com a ajuda do craque que ele mesmo não queria levar.

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