Ronaldo e o futebol carente

Não vejo exagero algum na maneira como a mídia vem tratando a volta de Ronaldo Fenômeno ao futebol brasileiro. Essa cobertura reflete de maneira precisa o estado de carência afetiva por que passávamos todos que amamos o futebol, sejamos torcedores, jornalistas ou apenas admiradores desse jogo mágico.Pode parecer difícil entender por que um jogador ainda gorduchinho, que ficou mais de um ano sem jogar, de repente captura as atenções de um País e de boa parte do mundo do futebol em apenas cinco jogos, quatro gols e algumas dezenas de toques na bola. Mas na realidade é muito fácil. Ronaldo veio para suprir a ausência de ídolos nacionais e de futebol bem jogado que vive o torcedor brasileiro.Seu retorno pode ser comparado ao frisson ainda causado por veteranos ídolos do rock. Chamados por alguns de dinossauros, esses músicos carismáticos e competentes de grandes bandas dos anos 70 e 80 ainda circulam por aí encantando plateias. Primeiro porque são craques no que fazem. Segundo porque foram sucedidos por artistas que não têm a mesma competência e carisma. Ou que, quando aparecem como boas promessas, logo ficam pelo caminho.O futebol brasileiro vive o mesmo dilema. Antes de virar ídolo, o jogador já se manda para o Turcomenistão e dele nunca mais se ouve falar. Ou então reaparece como ídolo em um grande time europeu, quem sabe naturalizado, defendendo outra seleção.Ronaldo é um pouco o elo perdido. Vê-lo em campo no Brasil compara-se a assistir a um show do Pink Floyd reunido, ou a volta do Police, do Genesis.Torcedores sentem falta de um craque de verdade, alguém capaz de fazer com três toques na bola o que a maioria não consegue com uma dúzia. A mídia clamava por um jogador que reunisse a atenção de torcedores acima das rixas clubísticas. Ronaldo faz isso. Seu gol contra o Palmeiras foi comemorado até por palmeirenses e também por santistas, são-paulinos e, claro - e mais -, por corintianos.Aquela camisa 9 em campo acrescenta pontos de audiência a uma transmissão de jogo equivalentes ao maior Ibope de emissoras pequenas.Maltratado como consumidor do futebol por jogadores medianos, estádios sujos e inseguros, violência crescente e espetáculos sem brilho, o torcedor foi resolver sua carência com Ronaldo Fenômeno. Não há exagero no que se fala e mostra sobre ele. Havia é uma necessidade enorme de assunto, de personagem, de carisma.Some-se a isso tudo o fato de Ronaldo ter sido construído como ídolo fora do País, sem ligação uterina com uma torcida de time. Seu sucesso precoce no Cruzeiro não o transformou num novo Tostão ou Dirceu Lopes. Ele desabrochou via satélite para as gerações de jovens e adolescentes que hoje vão vê-lo ao vivo. Por isso ninguém odeia Ronaldo, ele não provoca rejeição. É um adversário que, de alguma forma, é amigo de todo mundo. De volta às comparações musicais, é quase como ver o Frank Sinatra no Maracanã, depois de tê-lo ouvido a vida inteira em disco. Não importa se já estava velho e a voz não era a mesma. Era A Voz.Numa época em que, ganhado ou perdendo, a seleção brasileira é uma estrangeira residente, desconectada da alma do torcedor, Ronaldo aparece como remédio para a carência de gols, de craques, de ídolos. De futebol.* Comentarista do canal SporTV e autor do recém-lançado livro Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro

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