Roubo vai limitar troca de dados

Comitê Organizador dos Jogos de Londres revela restrições no envio de informações ao Rio para evitar novos incidentes

JAMIL CHADE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h06

O roubo de documentos do Comitê Organizador dos Jogos de Londres - dez funcionários do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016 foram demitidos por terem copiado arquivos sigilosos que abordavam, entre outros temas, segurança - vai custar caro para o COB. Ao Estado, membros da organização do evento em Londres revelam que, a partir de agora, a ordem é dar o mínimo apoio aos brasileiros e só prestar as informações básicas.

No COI, o temor é de que esse roubo tenha como finalidade a venda de informações sobre os Jogos para terceiros. Já na imprensa internacional, o evento no Rio foi associado ao roubo, uma imagem que o Brasil faz de tudo para tentar apagar.

O Estado apurou que o roubo foi identificado pela primeira vez pelo sofisticado e milionário sistema de informática que Londres montou. Para evitar que os computadores dos Jogos fossem vítimas dos hackers, os organizadores desembolsaram uma fortuna. A garantia era de que o sistema evitaria qualquer invasão, mas os ingleses não esperavam que o roubo viria de dentro.

Ao baixar os dossiês que eram mantidos em sigilo, as máquinas que estavam sendo operadas foram registradas. Um alarme foi soado internamente e, em pouco tempo, os responsáveis pelos atos ilegais foram identificados.

Apenas para identificar a atividade de hackers, Londres contratou a empresa Atos Origin, especializada em segurança de informações. A empresa dedicou 450 técnicos ao evento, que monitoraram toda e qualquer ação considerada estranha. Em Pequim 2008, 12 milhões de ataques cibernéticos foram identificados, mas nenhum deles teve sucesso.

Oficialmente, os organizadores de Londres se limitaram a emitir um comunicado em que confirmavam o "incidente", sem qualificá-lo. Mas um alto funcionário na capital britânica revelou ao Estado que a ordem é a de fechar as portas ao Rio, sempre que houver algo pouco claro ou informações delicadas. Tradicionalmente, os organizadores dos Jogos que acabam de ocorrer se reúnem por meses com os próximos responsáveis para evitar erros e melhorar o evento.

"Quando se soube que eram os brasileiros, o mal-estar foi imediato", contou a fonte, na condição de anonimato. "Nossa primeira reação foi a de fechar tudo. Há muita coisa em jogo e nos parecia incrível que o roubo viesse dos brasileiros", indicou.

Agora, a ordem é a de fazer o mínimo esforço para repassar informações ao Rio. "Tudo isso é uma questão de confiança", disse a fonte. "Os chineses organizaram os Jogos antes de nós, em 2008, e sofremos muito porque Pequim considerou que tudo era secreto. Estávamos dispostos a mudar a atitude com o Rio e mostrar que não repetiríamos o modelo chinês. Mas há agora quem diga que fomos ingênuos".

No COI, a ordem é a de deixar claro que o assunto é uma questão bilateral entre Londres e Rio. Mas, nos bastidores, a preocupação é grande. O COI vem insistindo que a transferência de conhecimento entre uma sede e outra pode fazer muita diferença e, com o incidente, teme que isso seja parcialmente abandonado.

Mas outro temor real é a motivação dos funcionários que roubaram as informações. A preocupação é de que elas poderiam estar sendo vendidas para outros parceiros. Num evento de US$ 8 bilhões, setores inteiros da economia buscam dados para apresentar o perfil mais atraente em eventuais licitações.

Repercussão. A notícia do roubo foi amplamente divulgada no exterior. De Chicago a Londres, passando pela China e dezenas de jornais europeus, a notícia foi acompanhada por adjetivos como "vergonhoso" e "saia-justa" para a imagem do Brasil como organizador de grandes eventos.

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