Andrej Isakovic/AFP
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Atletas assumem defesa e Rússia tenta nova arma na luta contra a punição por doping: emoção

A decisão de manter ou derrubar o banimento dos competidores pode determinar se autoridades antidoping poderão punir programas de trapaça apoiados pelo Estado

Tariq Panja, The New York Times

19 de novembro de 2020 | 08h00

A tentativa da Rússia neste mês de derrubar a punição que a proíbe de participar de competições internacionais de esporte durante quatro anos se transformou em uma arma familiar: a emoção.

Em uma audiência privada realizada durante quatro dias na primeira semana de novembro, as autoridades esportivas russas puseram de lado suas negativas e seus advogados recuaram de seus papéis, permitindo que seis atletas russos assumissem o papel principal. Os atletas falaram não sobre o que a Rússia fez em busca da vitória, mas a respeito do que eles tinham a perder; e todos eles transmitiram a mesma mensagem: Por favor, não nos punam por algo de que não participamos.

Os apelos emocionados ao painel de três árbitros do Tribunal Arbitral do Esporte em Lausanne, Suíça, pareciam ser um esforço para humanizar as consequências da proibição mundial dos esportes russos que a Agência Mundial Antidoping (WADA, na sigla em inglês) impôs no ano passado. Mas o que está em jogo - para a Rússia, para os reguladores antidoping e para os esportes globais - não poderia ser maior.

Se a Rússia não conseguir revogar sua proibição, ela enfrentará vários anos no deserto esportivo, com seus atletas, sua bandeira e até mesmo seu nome barrados de eventos importantes como as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Mas é o outro desfecho que preocupa as autoridades antidoping. Se a Rússia conseguir derrubar sua proibição - a primeira punição geral emitida para um país inteiro sob novos regulamentos elaborados pela WADA, o regulador antidoping global - um esforço de anos para que a Rússia pague um preço por um dos mais sofisticados e descarados esquemas de trapaça na história do esporte terá fracassado.

“É um teste do sistema”, disse Michael Ask, CEO da Agência Nacional Antidoping da Dinamarca. “Isso foi depois de muito tempo, há anos temos tido isso, e agora parece que chegamos ao fim e o capítulo final está sendo escrito agora”, acrescentou. “Claro, em todos os bons romances, o final costuma ser a parte mais interessante.”

O resultado da audiência é esperado para o final do ano. Os presentes na audiência de 2 a 5 de novembro descreveram uma demonstração de força esmagadora da Rússia, com um bando de advogados esportivos nomeados para representar o Comitê Olímpico da Rússia ou associações como a Federação Internacional de Hóquei no Gelo, todos os quais se opõem à proibição. Até oito equipes jurídicas diferentes falaram em nome da Rússia, de acordo com uma pessoa presente na audiência de quatro dias.

Muito do foco não estava em saber se a Rússia havia manipulado dados de testes - a WADA produziu evidências no ano passado de que sim -, mas se a punição se encaixava ao crime, e se a agência antidoping foi exagerada ao emitir uma proibição abrangente que afetará os atletas, autoridades do esporte, políticos e outros agentes do governo russo.

O fato de a agência antidoping poder emitir tal punição foi o resultado de uma mudança em suas regras, visto que organizações esportivas globais buscavam punir a Rússia por suas atividades de doping. Acredita-se que essas atividades tenham corrompido dezenas de grandes competições internacionais, incluindo, principalmente, os Jogos de Inverno de 2014 de Sochi.

Antes que as regras mudassem, as organizações esportivas individuais deveriam determinar suas próprias punições. Mesmo depois que o escopo do programa de doping patrocinado pelo Estado da Rússia foi revelado antes dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, poucos o fizeram. No Brasil, apenas o atletismo e o ciclismo proibiram os atletas russos depois que o Comitê Olímpico Internacional (COI) se recusou a impor suas próprias sanções mais amplas.

Mais de um ano após os Jogos do Rio, a Rússia foi finalmente impedida de participar das Olimpíadas pelo COI. Mas para muitos na comunidade de atletas e antidoping, a punição - que barrou a bandeira e o hino da Rússia, mas permitiu que seus atletas participassem - não foi longe o suficiente. A Rússia chegou aos Jogos de Pyeongchang com uma grande delegação, a maior desde Sochi.

A proibição da WADA, anunciada em dezembro, é a mais dura até agora. Todos os atletas russos, exceto aqueles em um grupo examinado que podem provar que não tinham nenhuma conexão com o programa de doping do país, serão barrados de todos os eventos esportivos internacionais de alto nível por quatro anos. Aqueles habilitados para atuar só poderão fazê-lo como neutros e com uniformes que não os identifiquem como russos.

Na audiência deste mês, de acordo com duas pessoas presentes, os advogados da Rússia argumentaram que a WADA foi além dos limites razoáveis com suas punições, e até mesmo além do que legalmente poderia fazer no âmbito de seus estatutos. A equipe jurídica da WADA rebateu descrevendo seus esforços como algo semelhante a uma administração burocrática, uma tentativa de trazer para si - e padronizar - os poderes de sanção que haviam sido deixados para federações esportivas individuais.

Mas eles também apontaram as terríveis consequências de não punir a Rússia por suas ações. O país não apenas empreendeu um programa de doping que usou recursos de Estado, incluindo a agência sucessora da KGB, para cumprir seus objetivos, disseram os advogados, mas também usou as mesmas forças para encobrir suas ações.

Se a WADA não tiver permissão para fiscalizar aqueles que violam suas regras, argumentaram os advogados, ela ficará impotente para impedir o doping em escala industrial nos esportes mundiais. A WADA se recusou a comentar a audiência ou sua estratégia legal. // TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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