S. Paulo, 16 de abril

Meu caro amigo: Confesso que fiquei preocupado quando li a notícia de sua contusão.Consternado talvez seja o termo mais adequado. Claro que todos nós estamos sujeitos aos acidentes de trabalho. Principalmente vocês atletas, que exigem do corpo o seu máximo, estendem a corda ao limite das possibilidades. Mas é estranha a ideia de que nossa própria atividade profissional possa ter como consequência a impossibilidade de exercermos o nosso nobre ofício, mesmo que seja temporariamente. O fato é que me deu uma tremenda aflição quando li as linhas que relatavam o acidente e através das fotos pude senti um pouco da sua dor.Imagino que você esteja ainda elaborando todos os múltiplos significados que possam estar embutidos nessa lesão. Uns creem em destino, outros nos desígnios de Deus, eu creio apenas nas surpresas da vida. São nomes diferentes para a mesma coisa. A realidade é o que sentimos, o que passamos e cada um de nós tem seu próprio tempo para entender seus efeitos. Alguns objetivos, palpáveis, físicos; outros apenas emocionais, invisíveis, subjetivos. Mas acho que não? Acho que no fundo a vida se faz da junção das duas partes: o que é material e o que só existe na consciência. Mas, como você bem falou, "em um segundo tudo muda na nossa vida". E cabe a nós nos ajustarmos a essas bruscas mudanças.Ano retrasado fui surpreendido com uma má notícia que me pegou desprevenido. Uma infecção indesejada me roubou temporariamente parte da saúde. Felizmente essa enfermidade não me impediu de continuar a fazer shows, embora confesso que durante dois meses os tenha feito na base de muito esforço, quase no sacrifício. Nada demais, coisa que pode acontecer com qualquer um de nós. Mas foi nesse momento que me dei conta do quão dependente sou de meu próprio corpo. O quanto preciso dele para poder fazer tudo, das coisas mais prosaicas e simples até os movimentos complexos. Foi essa reflexão involuntária e até mesmo indevida que trouxe um estranho benefício para minha alma atormentada.Justamente por me sentir mais frágil me senti mais humano. E, quando me restabeleci, voltei mais forte. De maneira nenhuma quero dizer que uma contusão ou uma doença é bem-vinda. Sou daqueles que creem que a vida deveria ser uma estrada desprovida de sobressaltos. Não sou ingênuo, sou só sonhador. Mas, quando acontece um imprevisto desses, a gente pode aproveitar pra mudar um monte de coisas. A primeira reação, claro, é querer curar, sarar o mais rápido possível. Só que há coisas que não adianta a gente apressar. Tem de ter paciência. Pra gente que viaja tanto, uma parada dessas traz sempre a alegria de poder ficar mais tempo com as crianças.Nada melhor do que os filhos! Tem coisa melhor do que poder pegá-los na escola? Um repouso forçado também é uma boa chance para ler clássicos. Ano passado saiu uma edição sensacional de Moby Dick. Esse é o tipo de livro que a gente precisa de tempo pra ler. Os Irmãos Karamazov também é uma ótima pedida. Enfim, cá estou dizendo pra você coisas que eu mesmo gostaria de fazer. Certamente você deve ter uma ideia melhor de como sair dessa chatice, do jeito certo de se distrair e fazer o tempo não passar tão devagar.Queria dizer que domingo vou ao estádio e tenho certeza de que todos os que estarão lá te levarão de uma ou outra forma para dentro do campo. Além do Bosco e dos outros jogadores, a torcida jogará por você. Desejo uma ótima recuperação, daqui umas duas semanas te faço uma visita. Um beijo nas crianças. Grande abraço, Nando Reis.

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