Salários atrasados, indignação e...vitórias

Atletas do Flamengo sofrem, mas dão exemplo de profissionalismo

Sílvio Barsetti, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2009 | 00h00

O time de basquete do Flamengo vive atormentado pelo fantasma da inadimplência. Aluguéis, taxas de condomínio e contas atrasadas passaram a fazer parte da rotina dos campeões da Liga Sul-Americana, título conquistado na semana passada na Argentina. Tudo isso porque o clube deixou de pagar o salário dos atletas - o mês de novembro do ano passado só foi acertado nos últimos dias. "Cada um tem o seu padrão de vida de acordo com o que ganha. Eu moro de aluguel e estou com problemas", afirma o armador Duda.Apesar do desconforto, ele e seus colegas mantêm o nível de profissionalismo do grupo. Alcançaram a façanha inédita para o Flamengo fora de casa e estão na briga pela liderança do Novo Basquete Brasil (NBB), o campeonato nacional masculino da modalidade. "Estou indignado com o descaso dos dirigentes. Comprei um carro à vista e o dinheiro não entra mais."O pivô Baby também sofre com a falta de recursos, embora tenha uma "reserva técnica" que lhe permite evitar alguns embaraços. Lamenta, no entanto, que nenhuma das seis parcelas "atrasadas" de seu contrato tenha sido paga. "Vai chegar uma hora em que isso vai estourar", prevê o pivô, casado e pai da pequena Tais, de 5 anos. "Ela está num colégio caro. Como a gente faz?" Baby mora na Barra da Tijuca e vai aos treinos, na Gávea, sempre de carro. "No posto não vão me dar gasolina de graça."A escassez de estrutura só não comprometeu até agora o rendimento da equipe do Flamengo por causa do alto nível técnico dos jogadores. No torneio nacional, eles estão viajando de ônibus para a disputa de algumas partidas. Duas semanas atrás, os gigantes rubro-negros levaram, apertados, quase oito horas para chegar a Vila Velha, no Espírito Santo, local de um confronto com o Cefat. Na final da Liga Sul-Americana, a classe escolhida foi a econômica para a viagem à Argentina.No jogo com o Cefat, o time fez um protesto em quadra, ao vestir camiseta onde se lia "respeito". O armador Fred não tem dúvida de que o problema afeta o "emocional" do grupo. "Nunca vamos fazer corpo mole, mas queremos uma decisão." Assim como Baby, Fred é casado e já matriculou a filha Rebeca, de 2 anos, num colégio de tradição. "É uma despesa a mais. Estou conseguindo administrar a situação, mas está cada dia mais difícil."Outro destaque do basquete do Flamengo, o ala Jefferson deixou o Univer, da Hungria, em agosto para apostar no projeto do clube carioca. Não se arrepende, até por conta dos resultados em quadra. Ao lembrar que houve até cancelamento de treinos por causa do atraso de salários, Jefferson faz uma cobrança óbvia. "A gente não quer trabalhar de graça." Na esperança de que haja uma solução rápida, o atleta alerta para um desgaste natural da equipe com os atrasos. "Fica complicado para o Paulo Chupeta (técnico) lidar com isso tudo. Algumas vezes, por uma disputa comum de bola, um ou outro se altera e há discussões que seriam facilmente contornáveis em outro contexto. Não sei onde isso vai parar."Cabe ao treinador a missão mais árdua da crise, a de conter o ânimo dos atletas e, ao mesmo tempo, cobrar uma definição da diretoria. Num discurso otimista, acredita que o Flamengo conseguirá saldar as dívidas. "Agora apertou um pouco mais, mas eu vejo boas perspectivas. O Marcelinho, o capitão do nosso time, está pra cima, isso é bem legal. Até porque, se ele não estiver, o barco afunda."Os dirigentes do clube alegam dificuldades para o pagamento por causa do endividamento geral do Flamengo - que soma R$ 240 milhões. No entanto, atacam em algumas frentes para superar o caos no basquete. Negociam com uma prefeitura do interior do Rio para levar os jogos do Rubro-Negro pelo NBB em troca da quantia de R$ 250 mil por mês e buscam um novo patrocinador para a equipe. Também lançaram uma campanha para que torcedores comprem camisa alusiva ao título da Liga Sul-Americana, a fim de reverter o lucro para o basquete, e estão cada vez mais usando o Maracanãzinho com o objetivo de atrair público.

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