Salto na luta contra o doping

Teste em cavalos está apurado e o Brasil corre para virar referência

Mônica Manir, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

Cavalo também tem entorse de joelho, dor lombar, dor de barriga, surto de estresse e tendência a ganhar peso. A diferença é que não tem celulite nem pede o remédio no balcão da farmácia. Recebe ingenuamente o alívio por meio de recursos naturais - como massagens, aplicação de gelo, dieta alimentar - ou artificiais, como analgésicos e antiinflamatórios. Daí estar tão ou mais sujeito ao exame antidoping que o atleta que leva nas costas. Os árbitros querem checar se o recurso aplicado no animal melhorou seu desempenho acima de parâmetro justo com os demais adversários.O exame ganha mais legitimidade no Pan por ser trampolim para a Olimpíada, pois os três primeiros conjuntos de cada categoria - adestramento, Conjunto Completo de Equitação (CCE) e saltos - garantem vaga para Pequim. Nos dois primeiros, já encerrados, o Brasil se classificou.Samba, o cavalo da adolescente Luiza Tavares Almeida, medalha de bronze por equipe no adestramento, foi a única montaria brasileira, por enquanto, a doar sangue e urina para a coleta. O material é coletado por dois americanos membros do Medication Control Program (MCP) e deve chegar, no máximo, 72 horas depois ao laboratório da Federação Eqüestre Internacional (FEI) em Paris. A Federação tem outros três pontos de referência: nos EUA, na Austrália e na China. O veterinário Thomas Wolff, chefe da equipe nacional de hipismo no Pan, afirma que o Jockey Club de São Paulo, do qual também é diretor do departamento de antidopagem, tem potencial para virar laboratório de referência na América do Sul. ''''Pretendemos adquirir em breve equipamentos de ultimíssima geração para sermos top de linha'''', diz.Os recursos antidopagem disputam corpo a corpo com a indústria veterinária, que se esforça para desenvolver medicamentos capazes de aumentar o desempenho do animal sem que seja desclassificado pela presença de substância proibida no corpo. A mais comum de ser flagrada pelo exame é a fenilbutazona, freqüente em analgésicos. O cavalo Waterford Crystal, pego no antidoping de Atenas em 2004, levava flufenazina e zuclopentixol no sangue, dois sedativos vetados pela FEI. Ele e seu cavaleiro, o irlandês Cian O''''Connor, cederam o primeiro lugar no pódio a Rodrigo Pessoa, mesmo depois de O''''Connor alegar que a medicação tinha nobre fim terapêutico.Acontece que boa intenção não emociona a Federação Eqüestre, muito menos o Comitê Olímpico Internacional. Embora a palavra doping tenha sido inaugurada por um dicionário inglês de 1869 significando uma mistura de narcóticos utilizada em cavalos puro-sangue, ela com o tempo ganhou esboços políticos, culturais, econômicos e jurídicos que lhe tiraram da baia objetiva. Para tentar se esquivar de ''''subjetividades'''', o Comitê vai direto ao ponto na regulamentação: ''''Estão proibidas as seguintes substâncias abaixo relacionadas''''. E segue-se um rosário delas.Por isso o veterinário de cavalo atleta costuma decorar a fórmula do medicamento, rezando para que não seja mudada pelo laboratório sem aviso prévio. Se precisar oferecer mais de uma droga, vira chef de cozinha, na tentativa de administrar o efeito de uma sobre a outra de forma que não comprometa possível antidoping. Também é imprescindível que conheça mais ou menos o metabolismo de seu paciente para ajustá-lo ao tal clearence time, ou seja, o tempo de excreção da substância. ''''Um analgésico pode tirar de imediato a dor, mas só é eliminado pela urina, pelas fezes e pelo suor muito tempo depois'''', afirma Wolff. Até variações climáticas são levadas em conta. Sob tempo frio, o cavalo retém mais a substância. Em dias de sol, talvez a elimine rapidamente pela transpiração.A QUALQUER MOMENTOO pessoal da coleta dá preferência à urina do cavalo, meio no qual se identificam mais facilmente substâncias vetadas. Por causa da repercussão internacional do Pan, o sangue também é coletado. Se o cavalo estiver fora do páreo, mas ainda assim permanecer no centro hípico, continua sob vigilância. O veterinário não pode aplicar relaxante muscular para um animal claudicante, por exemplo, sem a autorização da organização.Assim como Samba, qualquer dos demais 129 cavalos inscritos no evento deve estar à disposição para coleta de material até uma hora depois da última prova, no dia 29. ''''A escolha pode ser feita por sorteio ou por indicação dos oficiais do concurso que perceberem comportamento fora do comum do animal'''', explica Elaine Zander, juíza internacional de hipismo. Geralmente é o primeiro do pódio ou integrante da equipe campeã. ''''Não pode haver real campeão sem a checagem do antidoping.''''

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