Santos, 1ª vítima da história do S. André

Enir Ghirelli marcou o 1º gol da equipe do ABC justamente contra o adversário de hoje. [br]Pelé estava na torcida

Ana Paula Garrido, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Após receber a bola do centroavante, ele dominou com pé direito, apesar de canhoto, cortou o volante adversário com um drible curto - talento vindo do futebol de salão - e, em vez de bater cruzado como sempre fazia, chutou em paralelo: 1 a 0. Foi assim o primeiro gol do Santo André numa partida oficial, curiosamente em um amistoso contra o Santos, no dia 14 de abril de 1968. "Não dá para esquecer, foi um chute seco, que levantou cal das linhas do gramado", conta Enir Ghirelli, hoje com 64 anos.

No outro lado do campo, o Santos trouxe um time misto, "mas era um misto quente, com Aroldo, Orlando Peçanha e Pepe", pondera. Pelé não jogou, mas assistiu ao feito do camisa 10 andreense.

O santista Werneck chegou a empatar a partida, mas Zezé definiu a vitória do time do ABC por 2 a 1. Enir queria que Pelé jogasse, mas descartou que tenha ocorrido um possível "corpo mole" do adversário. "Eles foram para cima. O Negreiros deu muito trabalho para gente", lembra.

O então meia-armador não tem ideia de onde possa estar a camisa usada naquele dia, que, ao contrário do famoso uniforme amarelo do time, ainda chamado de Santo André Futebol Clube - em 1975, passou a ser Esporte Clube Santo André -, era branca, com listra vermelha, verde e as costas amarelas. Apesar de ainda não haver o costume de trocar a camisa com os jogadores do outro time, Enir lembra de ter entregue a dele. "No final, a torcida invadiu o campo, foi a maior festa, e um garoto pediu minha camisa", conta.

Trajetória. A relação com os dois times vem de longe. Nascido em Santo André, Enir passou a infância em Santos, onde chegou a jogar na equipe juvenil da Vila Belmiro.

Aos 13 anos, voltou para o ABC e atuou pelo Ouro Verde Popular: o "meu time do coração", revela. Lá, passou pelo infantil, juvenil e equipe principal. "Daí surgiram convites e virei profissional", disse.

Depois de quatro anos em diferentes clubes, conseguiu o passe livre e resolveu aceitar o convite do Santo André, ainda em formação. A equipe contratou alguns jogadores profissionais e completou o elenco com pessoal da base. "Eles chamaram o Manga, ex-goleiro do Santos. Senti firmeza e pensei, "vou"", explicou, sem arrependimento.

Segundo Enir, o time era bom, tanto que disputou a segunda divisão e "quase subiu no primeiro ano". O salário, no entanto, era bem abaixo do que se paga hoje para os atletas profissionais, mesmo para quem disputa a segunda divisão.

Outro aspecto interessante daquela época estava na pressão exercida pela torcida sobre o time que jogava em seu estádio. "Ninguém perdia em casa", afirma. O próprio time de Enir sofreu apenas uma derrota em confrontos no ABC, em 1968.

Sem acesso. A dificuldade dos times pequenos estava em se manter. Ainda mais com o fim da lei de acesso das equipes inferiores. "Muitos foram trabalhar nas firmas da região", comenta o meia-armador. Ele mesmo foi trabalhar na General Motors. Nunca mais voltou a jogar, exceto nas partidas entre os operários. Só voltou ao estádio uma vez, para ver Santo André e Rio Claro. "Não aguentei assistir ao primeiro tempo inteiro e fui embora", reclama.

Segundo Enir, o atual time do ABC, no entanto, tem talento e possibilidades de surpreender. Mínimas, porém. "O Santos tem 95% de chances e o Santo André, 5%". Situação parecida ao do seu tempo, com o Santos também em alta. "Mas, na hora em que a bola rolou, tudo mudou", recorda-se o herói do jogo histórico.

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