Santos, agora maduro e cruel

Neymar completou 18 anos em fevereiro, mas carrega o peso da expectativa de se tornar um grande jogador de futebol há quase sete, quando passou a ser tratado como um fenômeno mirim, candidato a craque. Muitas crianças no Brasil vivem a mesma situação, que não pode ser vista com a mesma naturalidade que desperta nos empresários do meio que, no lugar da infância enxergam apenas gente descartável.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

Ontem, na Vila Belmiro, o templo de Pelé, a verdadeira casa sacrossanta do futebol, o Santos atingiu seu ponto mais alto na competição, garantindo-se na final do Campeonato Paulista com a tão cobrada maturidade, necessária para o jogo coletivo e para os talentos que se encaixam numa dimensão histórica, acima dos problemas, da falta de tempo para treinamentos e do excesso de jogos. O time atual não parece sofrer com essas questões dos mortais. E vai jogando, jogando... Passando por cima.

O mesmo pode-se dizer do menino Neymar, um ano depois de estrear no time e superar a pressão de ser tão genial como profissional quanto nas partidas contra seus colegas infantis. E, desta forma, o guri vai se apropriando de um espaço grandioso no mundo do futebol.

Com a vantagem adquirida no Morumbi, mesmo após um segundo tempo acomodado, Dorival Júnior preparou para a Vila uma versão mais consistente de sua equipe no meio-campo, transformando Wesley em companheiro de Arouca, como no início do campeonato. André perdeu a vaga no ataque e Pará assumiu a lateral direita.

Medo? Não, circunstâncias, um pouco do tal equilíbrio, artigo de luxo na prancheta dos treinadores. O Santos sabia do que precisava e conhecia a necessidade do rival. Portanto, apresentou-se mais coeso na marcação acima de seus beques sem perder a velocidade para conduzir a bola no meio-campo, pois Wesley, hoje lateral e volante, era atacante na última passagem de Émerson Leão pelo time.

O São Paulo, sem vitória em clássicos, lançou algumas reclamações a respeito da arbitragem. Tem razão apenas no pênalti inexistente que foi marcado sobre Neymar, mas não foram esses os erros que sugaram a equipe da final. A verdade é que, depois de passados três meses, ainda não brotou um time no Morumbi.

Desta vez, Washington ficou no banco para a criação de um ataque mais rápido, com Dagoberto e Fernandinho abastecidos por Hernanes, Jorge Wagner e Cléber Santana, um meio-campo do tipo flex, projetado para funcionar com o combustível necessário, ofensivo e defensivo. Na prática, não é nada disso, e já tem gente no São Paulo falando em Zico. Para treinador.

O Santos apresenta desde ontem um discurso protocolar, respeitoso, de valorizar o esforço do oponente, mas agora, na final, só perde para ele mesmo. O título paulista vai confirmar um estilo, uma proposta de jogo e, principalmente, a combinação de talento e futebol coletivo.

Desta vez havia um favorito, produto de futebol encantador e de números incontestáveis, mas que poderia ser abatido pela sutileza de um clássico. Agora, depois da vitória sobre o São Paulo, do confronto com história, com lastro, surge uma final de campeonato que valoriza o trabalho de um pequeno, mas que não deixa dúvida sobre de que lado está a zebra.

A derrota para o São Paulo teria transformado o Santos numa espécie de seleção brasileira de 1982, destroçada pela Itália na Copa da Espanha, mas eternizada pelo futebol ofensivo e bonito. O título é obrigação, os jogadores sabem disso. Um tropeço na final criaria uma história muito difícil de ser contada, onde não haveria lugar para Neymar e sua turma.

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