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Antero Greco
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São Paulo derretido

O São Paulo parece um cubo de gelo vistoso que se derrete, aos poucos, ao ser colocado num copo com uma bebida qualquer - um guaraná, um licor, um uísque; depende da preferência do freguês. A água em estado sólido se dissolve, se mistura, desaparece. É engolida num estalar de língua.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2013 | 02h03

Pois esse processo de liquefação atinge um dos mais premiados clubes brasileiros - que tem 3 Libertadores, 3 Mundiais, 6 Brasileiros (sem o benefício de asteriscos nem títulos agrupados), uma infinidade de Paulistas e rico acervo de troféus. A equipe se desmantela, se despedaça, contrata e vende atletas às pencas, mói treinadores e não entra nos eixos.

Os 3 a 2 para o Vitória significaram outra etapa da crise de identidade tricolor, que se arrasta há anos. Os rapazes que foram a campo, como bando de peladeiros sem coordenação, refletem a desordem criativa que ocorre nos bastidores. Uma agremiação tradicional não pode virar feudo de nenhum tipo de dirigente, eficiente ou parvo que seja. Não deve tolerar quem se aferre ao poder a todo custo, nem inclinar a cabeça ou ter dono. Está acima disso.

Mas a prática indica o contrário. O São Paulo parece atado a personalismo, a métodos anacrônicos. Vive um surto de apequenamento. A autossuficiência daqueles que passam longo tempo no comando desemboca em distorção da realidade. Imaginam-se sempre inatingíveis, enquanto a base apodrece.

O alicerce que se deteriora é o time. Nos últimos quatro anos, entrou e saiu tanta gente no elenco, que dava para elaborar razoável lista telefônica. Os resultados? Uma coleção de frustrações. Pra quem conquistava taças com a naturalidade com que se toma cafezinho, uma Sul-Americana (e ainda assim com bafafá danado) é pouco. É pobre.

Vá lá que nem sempre se pode ganhar e é complicado manter hegemonia. Mas a desandada atual não se deve ao acaso; é desdobramento de políticas equivocadas de investimento, de contratações, de trocas de técnico. E sinal de egocentrismo desmedido de quem está na cúpula, que se crê deus. Um diretor explicou, dia desses, que em 2009 a saída de Muricy Ramalho se deu por "fadiga de material". Por que o raciocínio semelhante não se aplica a pessoas que vivem no Olimpo do clube?

Paulo Autuori saiu do Vasco por não concordar com atrasos de salários, porém percebeu em Salvador o tamanho do obstáculo a superar na nova empreitada. O São Paulo se partiu, muitos titulares entraram em parafuso e têm rendido perto de nada. Alguns até suscitam dúvida em relação à capacidade de vestir camisa tão pesada. Fora os que se descontrolam com facilidade - desta vez, foi Wellington, que cometeu pênalti (perdido por Renato Cajá), se irritou, cometeu outra falta forte adiante e foi expulso. Não é coincidência o fato de cinco são-paulinos terem recebido vermelho até agora (um terço do total dentre os 20 participantes da Série A).

O Vitória teve méritos. Seria injusto considerar os gols como obras do imponderável. Entortou o rival paulista, explorou crateras no sistema defensivo, engoliu meio-campo e zaga. E, nesse buraco, se enfiaram Lúcio, Edson Silva, Rodrigo Caio, Maicon, Ganso. A propósito: onde foi parar a maestria de Ganso? Dissipou-se entre a Vila e o Morumbi?

A chance de reação está no clássico com o Corinthians, pela Recopa. Quem sabe seja a retomada e o desmentido dessa sensação ruim? Será?

Galo vingador. O Atlético está com a cabeça voltada para a decisão da Libertadores? Não parece. Cuca botou vários reservas para enfrentar o Corinthians e eles deram uma palhinha a respeito do ânimo que os cerca, antes do primeiro duelo com o Olímpia. O Galo mineiro foi valente, ontem à tarde, no Pacaembu, aproveitou uma das raras oportunidades, marcou, venceu por 1 a 0 e sobe na tabela. O Corinthians flutua, oscila, vê escorrerem pontos importantes. Pode ser que, ao acordar, não dê tempo para o titulo. O São Paulo vai pagar o pato depois de amanhã. (Aliás, Pato rendeu pouco.)

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