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São Paulo

A cidade de São Paulo, tal como a conhecemos, tem mais ou menos a mesma idade que seus times de maior torcida. Os séculos anteriores claro que significaram muito, mas dizem respeito a uma outra cidade. A cidade que temos diante de nossos olhos tem pouco mais de 100 anos.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2014 | 02h04

Cada um desses clubes percebeu claramente que tinha diante de si um dever. Tinha a necessidade de representar uma cidade que se consolidava. E cada um fez isso a seu modo.

Certamente passou pela cabeça dos primeiros dirigentes do Corinthians, em 1910, a visão de um clube que incorporasse a massa dos desfavorecidos, dos egressos da recente escravidão, dos que não tinham representação alguma, dos que não estavam reunidos sob nenhum teto. Essa primeira vocação do Corinthians, talvez na época apenas antevista, consolidou um clube de torcida amplamente majoritária na cidade. Não são os desvalidos maioria neste país? Não são os que estão à margem que se agrupam em multidões e multidões? O Corinthians, se bem que no plano simbólico, ajudou a dar dignidade a essa enorme massa. E o simbólico conta muito.

Ajudou a que se sentissem de algum modo parte da cidade. Todas as suas conquistas envolvem multidões que quando entravam nos estádios pareciam as multidões em revolta das grandes cidades europeias. Não é por acaso que o "time do povo" exerce estranho fascínio sobre gente politizada, indignada contra as injustiças, revoltada contra as iniquidades.

O São Paulo foi formado pelo grupo que esperou séculos. Pacientemente esperaram que Salvador, Recife, Ouro Preto e Rio de Janeiro dessem suas contribuições a este país. E viram que tinha chegado finalmente sua vez.

O São Paulo é uma reinvenção do Paulistano, os dois adotaram o nome da cidade como a lembrar que São Paulo não tinha chegado ontem, que a pobre pequena cidade dos séculos anteriores criava silenciosamente uma elite, quase uma aristocracia. O São Paulo foi feito para representar a cidade organizada.

O clube imbuiu-se desde o inicio do destino da cidade: vencer. Organizar-se, exercer seu poder de pressão sobre os outros para crescer e ganhar, ganhar sempre mais. Essa é também uma característica da cidade, da vitória acima de tudo. O São Paulo tem por missão espalhar pelo Brasil, também simbolicamente, o poderio desta cidade. Seu orgulho, suas cores, que são as mesmas da bandeira paulista, e mesmo sua arrogância, sua altivez desdenhosa. Se for computado seu tempo de vida é o clube mais vencedor da cidade.

O Palmeiras chegou com a guerra. Foi uma espécie de lembrete que a Grande Guerra de 1914 se feria aqui também. A guerra já existia entre os imigrantes na luta diária pela sobrevivência, nas fábricas e nas oficinas. Esse clube é o mais legítimo representante do operariado urbano que veio caracterizar esta cidade.

É possível que o dinamismo, a energia que existe em cada esquina, seja produto dessa gente que chegou da Europa e formou os grandes bairros operários de São Paulo. O Palmeiras foi concebido para acolher quem vinha e, como a cidade, se tornou um clube de várias línguas, de inúmeros dialetos, o que explica sua tradição às vezes confusa e pouco inteligível.

O Palmeiras representou o europeu devidamente canibalizado, transformado e devolvido à sociedade como brasileiro, obedecendo ao principio básico do modernismo, que nasceu quase ao mesmo tempo que ele. Antecipando a cidade de hoje com suas mutações alucinantes, o Palmeiras num dia era Palestra Itália e no seguinte era Palmeiras. Esse clube é a mais duradoura realização, a única plenamente cumprida, dos sonhos de glória dos primeiros imigrantes. Os três clubes caminharam com a cidade até o que ela se tornou hoje. Resta saber o que pensariam os pioneiros, os fundadores, desta cidade de 2014.

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