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São Paulo sem máscara

Uma das lendas do futebol conta que o São Paulo tem características que o fazem único, especial, difereeenn-txe dos demais, como costuma dizer o ex-presidente Juvenal Juvêncio carregando nas sílabas. A imagem de sofisticado, polido, nobre surgiu na raízes, na fundação, e se popularizou no apelido de Pó de arroz, além do personagem Didu Morumbi, ricaço esnobe criado pela mente extraordinária de Estevam Burroul Sangirardi, no "Show de Rádio" (da Jovem Pan), antigo humorístico ligado ao esporte e que hoje só os vovôs talvez se lembrem.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

15 Março 2015 | 02h01

Enfim, espírito tricolor virou sinônimo de ponderação, galhardia, cavalheirismo entre oponentes. Dissensões internas se resolvem com diálogo, nada de lavar roupa suja em público. Nem por sonho insinuações de bafafá. Reações impulsivas e menos clássicas podem aparecer nos concorrentes; por lá, no máximo se admitem leves rusgas.

Pois se sabe agora que o São Paulo é igualzinho a todos, e procurando bem tem problemas - "só a bailarina que não tem" - , como na canção de Chico Buarque. O que ocorre ultimamente demonstra que no mundo da bola não há nobres nem plebeus, mas uma tremenda mistura de emoções, atitudes impulsivas, tramoias e conchavos.

O São Paulo, enfim, é normal. Graças a Deus, e quem escancarou essa condição foi Muricy Ramalho, cria da casa como jogador e técnico. Só neste começo de temporada, botou o dedo na ferida em duas ocasiões, com desabafos em entrevistas coletivas, nas quais avisou que não mudaria comportamento para atender a pressões políticas e revelou que há divisão que vem do alto, "não dos jogadores". Ainda.

Muricy não mentiu, embora o presidente Carlos Miguel Aidar tenha sido rápido ao emitir nota, na sexta-feira, em que garante que tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis. Na avaliação do dirigente, com apoio unânime de seus pares, há interpretações distorcidas. Na nota, apoiou o treinador e adiantou que, no final do ano, haverá renovação de contrato, desde que o "senhor" Muricy queira. Não sei não, mas esse "senhor" soou superficial, mostrou mais distanciamento do que intimidade, parecia Diário Oficial.

O São Paulo acreditou nessa conversa de diferente e embarcou nela, mesmo quando cometia erros semelhantes ao de concorrentes tão criticados. Episódio emblemático foi a mudança de estatuto, as reeleições de Juvenal e a extensão do mandado para três anos, em vez dos dois tradicionais. O tricolor regrediu na forma de conduzir problemas, investimentos e montagem de equipes. Foi na contramão de coirmãos e apostou na permanência longa de um dirigente. Optou pelo culto à personalidade em vez de recorrer à profissionalização e à modernização.

Não se trata de coincidência o fato de que, a partir disso, minguaram as conquistas. Desde 2009, o clube festejou apenas uma Sul-Americana, a de 2012 e com confusão na final. (O Tigre, da Argentina, não voltou a campo para o segundo tempo, no jogo disputado no Morumbi.) Nada de Brasileiro, Paulistão, Taça Libertadores. Nem a inédita Copa do Brasil.

Nunca, na história moderna, o São Paulo amargou abstinência tão acentuada de glórias. Exceto no período entre 1957 e 1970, durante a construção do estádio. Depois disso, a torcida acostumou-se a fazer com regularidade, dentro e fora do país. Daí a justa decepção atual.

O grupo no poder há tanto tempo, uma espécie de PRI tricolor - o Partido Revolucionário Institucional governou o México de 1929 a 2000 - rachou, com a ruptura entre Aidar e Juvêncio, fora outras picuinhas. Até o retorno de Aidar, como havia sido o de Juvêncio, é indício de falta de renovação na liderança. O primeiro governou entre 1984 e 1988 e o outro entre 1988 e 1990. Antes inimaginável, agora uma ameaça: o São Paulo pode perder o metrô da história.

E o time também precisa se ajudar e jogar mais. Não digo hoje, pois serão reservas diante da Ponte. Mas nos clássicos regionais e acima de tudo na Libertadores. Está na hora.

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